domingo, 27 de dezembro de 2009

O vôo da pantera vermelha

O velho sentado na cadeira de balanço à varanda ideal
Pensava...
Sem se dar conta de estar pensando.
Pensava...
Mesmo sem saber que se podia pensar.
Tampouco saber que se pode dizer o que se pode pensar,
-E se pode?-
Nem que o que se pensa possa existir,
E que há palavras para traduzir pensamentos, ainda que de forma pífia.
Pensava sem prestar atenção no que estava pensando.
Pensava sem realmente saber o que estava pensando.
Adentrava em reflexões profundas de pensamentos vazios,
Simplesmente adentrava numa onda invisível,
Demasiada aconchegante.
Deixava-se ir por completo,
Era pela primeira vez completo.

“- A Terra é até onde meus olhos alcançam, não é redonda!
Posso ver morros, vacas nos morros, uma igrejinha em um morro,
Mas não o que há por detrás do morro.
A Terra é plana para mim, é onde vivo...
Há tanta gente na Terra, tantos pensamentos pensados em tantas línguas distintas,
E dizem que ela é um pontinho só no Sistema Solar, que está na Via Láctea.
Há bilhões de estrelas na Via Láctea...
Ela tem este nome porque alguns gregos há milhares de anos, neste mesmo planeta girante, mas não onde meus olhos possam alcançar, - mesmo que tal fato se desse neste morro à minha frente-, achavam que suas estrelas aparentavam o rastro de leite derramado.
Leite que sai de animais como aquelas vacas que estão neste morro à minha frente.
Esses gregos só existem por minha causa,
Assim como este morro, estas vacas, aquela igrejinha e o próprio Cristianismo com seu Deus,
Pois; sem mim, para mim nada existiria.
E tão certo é dizer que nada existiria para qualquer outro se este não existisse.
Só há morros, vacas, igrejas, Terra e Universo porque há quem se dê por eles.
E são tantos quanto tantos Universos possam existir,
Cada um com um Universo para si pensando ser o mesmo para todos.
A Terra é demasiada cheia de pensamentos, pessoas, Eras, vacas, igrejas e morros; que se afirmar qualquer coisa é muita presunção.
Quem sou eu para dizer uma verdade, mesmo a que meus olhos vêem?
A Terra é plana porque assim a vejo, mas o que vejo dizem que é uma mentira.
Compreender é ter a ir que pensar que jamais haverá compreensão.
E qualquer coisa além disso é muita presunção.
Tudo é uma mentira sem deixar de ser uma verdade.
A Via Láctea é um pontinho no Universo.
Há o tempo diferente em que as coisas se dão, e espaços diferentes para se dar outras coisas também.
Este mesmo morro à minha frente não é o mesmo morro de ontem porque ocorrem coisas distintas daquelas.
Aquelas não são as mesmas vacas ainda que façam as mesmas coisas e guardem perfeita semelhança com as de ontem.
Eu não sou o mesmo de ontem, de uma hora antes, de um segundo, de um lapso temporal menor que a menor coisa que possa existir, até vir a coincidir em mim mesmo...
Aí então, eu não sou eu, e Nada não é nada.
E as coisas acontecem guardando semelhanças com algo invisível que não as deixam desgarrar do Universo, e existem porque os olhos vêem!
Mas os olhos pensam que a Terra é plana e que as Estrelas são vaga-lumes.
No entanto, ao redor das Estrelas, há tantos outros planetas girantes como este aqui, quem sabe até este mesmo!, em um tempo que meus olhos jamais poderão alcançar, -estão lá, mas não posso ver-, com um velho pensante que já deixou de existir com seu próprio planeta.
Assim como eu a meu tempo, mas é natural acreditar que não.
Todo passo dado é rumo ao desconhecido.
- Envelhecer é viver tudo aquilo que já se foi vivido no mesmo instante em que se tem de caminhar para o desconhecido-.
Todo caminho trilhado é sem volta.
Pensando se estar voltando, está-se andando adiante na escuridão,
Rumo nem a uma verdade e nem a uma mentira que os olhos ainda não podem ver.
Por detrás do morro o Sol vai desaparecendo e já não posso ver as vacas e a igrejinha, mas elas estão lá.
O Universo que estava invisível vai se abrindo em uma noite estrelada como um milhão de vaga-lumes.
O fim do dia é o fim do Mundo.
Quem garante que o Sol vai voltar amanhã?
Só porque ele sempre voltou todos os dias?
Não há passos rumando para lugar conhecido algum, todo dia é uma novidade.
Quem garante que aquilo que os olhos vêem, ou não, exista, que eu exista?
Mas se não eu, quem está pensando em meu lugar?
Os pensamentos são uma realidade mais forte que qualquer morro, vacas, igrejinhas, planetas ou estrelas...”

E assim,
Sem saber estar pensando,
Nem imaginar levar à tona pensamentos comuns,
Tão naturais que se confundem com qualquer ser,
Fumando um cigarro, como recompensa de si para si por nada,
O velho na cadeira de balanço à varanda ideal chegava a Descartes sem nunca ter ouvido falar dele,
Escrevia filosofias em seus pensamentos que são comuns a toda (a) humanidade,
Desvendava a Física de Einstein sem também nunca ter escutado tal nome,
Mas que todos intuem.
A Terra já lhe parecia um lugar demasiado feliz para ser deixado,
Mas o Universo, que não era feliz nem triste, construía-se-lhe em exatidão, e era demasiado aconchegante para ser recusado.
Não havia mais passos rumo ao desconhecido neste Universo que o perfazia,
Não havia mais o indefinido, pensamentos impronunciáveis...
Pois tudo o que se pensava já era dito numa língua perfeita.
O velho fumando a Terra, a todo seu tempo, em seu cigarro quase acabado, na cadeira de balanço à varanda ideal, constituía-se no Universo e o Universo em si no balançar de sua cadeira.
O semi-analfabeto velho já era então invencível, estava acima das forças naturais da Física de qualquer Einstein, das verdades e mentiras filosóficas de qualquer Descartes.
Sem saber que sabia...
Pensando...
Sem reparar que pensava...
Sem saber no que havia pensando,
Tampouco lembrar o tanto de idéias sobre as coisas que acabara de pensar,
-Dava preguiça tentar lembrá-las, era melhor ir as esquecendo até não mais sabê-las-.
-Pensar talvez seja ato à parte de existir...-
O Velho compreendia, sem nunca terem lhe ensinado, sobrepujava a Einstein e Descartes sem ninguém nunca saber,
que o perfeito é aquilo que está acabado.

JMottër, Maceió, 28 de Dezembro de 2009, Segunda-Feira

2 comentários:

Bio disse...

Li este poema através da varanda do vecho Abele em Maravilha...que ainda está viva e colorida na minha memória com direito a luz,cores , som dos pássaros e da nossa infância.Vai ver é por isso que a cada pequeno gesto esse velho derrama uma lágrima...talvez ele compreenda...Fiquei pensando:"Meu Deus..não tenho nem como dizer nada!!!"Faltam palavras pra que eu expresse a tua genialidade,qualquer coisa que eu diga não chegará aos pés da tua poesia!!!
Vc precisa guardar todos os teus escritos pra que eu os publique!Pode ter certeza de que vou publicar!!!Vc tem todos guardados?
Betunia(a primogênita,rsrsrsrs)

Geraldo Brito / Dado disse...

Muito interessantes seus textos.
Já publicou algo?
Parabéns!