segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Dédalo

Livro de notas de Agenor e Abele

I.

Sua antiga cidade lhe guardava agora um ar interiorano. Isso doía. As coisas lhe guardavam cada vez menos intimidade. Desde as antigas pessoas que costumava conhecer aos lugares que freqüentava. Era um estranho familiar. Porém onde estava a morar era um estranho estranho. Todavia isso doía menos. Encontrou-se com amigos. Sentia-se deslocado. Um tanto não querido. Talvez com razão. Cada vez menos tolerava conversas daquele povo, de qualquer povo. Estava perdido em meio a dois lugares que não queria estar. Em meio a mais paixões que podia carregar. Esqueceu-se de muitas coisas que lhe tiveram de ser lembradas à medida que se esquecia de outras que lhe seriam igualmente lembradas depois. Tudo lhe trazia angústia.

Estava a perder intimidade com o mundo físico e se aprofundar num caminho sem volta em tudo que se contrapunha à matéria. Em verdade, negava tudo que era palpável porque tudo isso lhe causava desconforto. Procurava alternativa nas coisas metafísicas ainda que não pudesse tocá-las ou compreendê-las em plenitude. Ninguém podia. Negava coisas que via em si. Não conseguia mudar. Nem tentava. Procurou refúgio em diversas coisas, forçadas ou não. Tudo em vão. Tudo lhe doía e ninguém podia compreender sua dor, simplesmente porque era sua. Não queria terapias. Não queria remédios. Não queria soluções fantásticas, curas milagrosas. Porque isso simplesmente não existe diante de dor. Sabia de seu estado e havia se resignado a uma vida que passaria diante de si. Seria sempre um segregado. Um estranho familiar. E na infelicidade de sua angústia desconfortável encontrava um certo sossego.

Apesar de tímido acumulou muitas namoradas ao longo de seus anos, algumas concomitantemente, -devido à boa aparência física-; uma filha, um casamento, e dois amores, que não sabia dizer se de fato eram amores. Apesar de ter bastantes complexos era muito vaidoso. E apesar de ser um bom sujeito nunca foi um bom amante. Amou e mui sinceramente cada uma de suas mulheres. Mas não conseguia demonstrar. Ficou de romance por anos sem nunca ter firmado algo sério com diversas garotas. Todas na verdade. Exceto uma. Agora na meia idade, só, vivia em um mundo à parte da realidade. Mal guardava contato com o mundo exterior. Não trabalhava mais. Havia sido aposentado por invalidez psíquica. Fato esse lhe rendia sua precoce aposentadoria. E seu auto-exílio no mundo que criara para si.

Era metódico. Todos os dias saía para correr. Era vegetariano. Escrevia todos os dias, sempre antes de dormir. Sempre freqüentava os mesmos lugares às mesmas horas.
Perdera completamente a noção de como se viver em sociedade. Das falsidades necessárias. Dos risos forçados. Dos falsos interesses em conversas tolas. Das mentiras imprescindíveis para uma vida medíocre que todos almejam. Das mentiras convenientes na hora do flerte... Gradualmente ia perdendo a noção dentre seu mundo imaginado e o mundo real. Não sabia mais se fatos realmente haviam acontecido, ou se não passavam de imaginações suas. Não lembrava mais distintamente de suas mulheres. Misturava características delas em uma só. Confundia os nomes. Esquecia de outras. E pensava ter existido umas outras tantas que não existiram.

A vida se lhe apresentara como um ser distinto de si. Era um ente, não coisa sua. Um ente que lhe perdia intimidade com o passar dos anos. Um ente que parecia querer se despregar de si. Um irmão siamês que precisava ser desgarrado. Tal separação implicaria na morte de um em prol do outro. Como nunca se decidiu qual dos dois viveria, levou uma vida, duas vidas; porém, duas vidas pela metade. De um lado ele querendo viver, recuperar a intimidade consigo mesmo, preferindo uma vida manca à morte. De outro lado ele também, eu!, sugando toda vitalidade de minha outra metade, e preferindo o risco da amputação à uma vida pela metade. Perdoem minhas oscilações. Ora sou o que vos fala, Agenor; ora aquele que mencionei, Abele. E todos somos parte de um só ser: Este que vos escreve.


II.

Penso saber dar por mim quando se é preciso disfarçar sanidade. Mas falho. Ocorre, que me esquecem, às vezes, gestos quotidianos medíocres. Então, sou o insano por não saber dar o riso em contraposição ao siso. Por se esquecer das falsas boas maneiras. E de não concordar com o gosto alheio.

O ser humano se me apresenta como um ser desprezível, salvo exceções. Fazendo esforço e saindo de mim, vejo-me não menos desprezível. Mais até. Pois sei bem das futilidades alheia. Reconheço-as em mim. E o que faço? Tento dar o riso na hora certa sem achar graça. Talvez aqueles, os menos desprezíveis, tenham achado graça. Porque sou eu e não eles o que repara na mediocridade de tais gestos. Talvez eles sejam sinceros e eu um sujeito medíocre infeliz. Sem saber se é infeliz por ser medíocre ou medíocre por ser infeliz...Eles não acreditam no que dizem...Ainda não deram por si que são medíocres.


III.

Não sou o que sabe se chegar à menina. Acho tudo isso ridículo. E quando me vejo estou com a menina de momento como que por obrigação. Gostaria de sair de mim e me ver a se chegar na menina de momento como se fosse a menina certa. Sei capturar o semblante dela como que se pedisse com os olhos que eu me chegue. Sei dizer coisas medíocres convenientes que ninguém acredita, e que todas querem ouvir. Não sei amá-las ainda que as ame, mui e sinceramente.

Amo-a. Minha vida toda dei por isso. Guardo-a para mim como que pudesse guardá-la para sempre. E não posso?

Posso vê-la vestida de noiva com os pés na areia e um buquê nas mãos. O som das ondas e os poucos convidados que não querem dizer nada se comparados a ela e à sensação. Posso ver seu penteado com seu cabelo negro. Seus olhos a fitar o nada como da primeira vez que me cheguei a ela. E o seu olhar que faz com que eu me sinta feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando não estou com ela, quero vê-la durante todo o tempo e nunca mais ter de deixá-la. E quando estou para vê-la sinto tanto medo que tenho vontade de desistir. Mas por inércia continuo meu trajeto ao seu encontro, como que da primeira vez. E como da primeira vez não me arrependo. E me sinto feliz de estar diante dela a todo instante, e desejo que tudo isso fosse para sempre.

Quando tenho de deixá-la, tenho de ser o que faz um esforço tal o que se amputa. Aqui estou sem vê-la, imaginando como que se fosse verdade a praia e seus olhos fitando o nada com raiva.

É acrescentado sempre uma coisa nova quando a vejo. Um sentimento novo a ser catalogado. Como se sempre fosse a primeira vez e eu sentisse o pasmo necessário diante dela. O desassossego de a ter visto, saber que existe. A gana de me chegar e não parecer ridículo. A perturbação agradável de se estar apaixonado. A vontade de jamais deixá-la. A ansiedade de tê-la por imaginação. E de tê-la por ter em realidade. E de finalmente sentir-se afortunado por poder se estar com ela. O cheiro doce de seu perfume sentido por mim e cravado para todo o sempre em meu ser metafísico.

Tudo nela me é motivo para sossego e desespero.


IV.

Sou o que acredito no amor da dama. E o que deu por si que o amor da dama era coisa de sua imaginação. Pude vê-la vir ao meu pé e me desejar amor porque me amava. Cri em suas palavras e disse coisas de minha alma e de meu coração. Amei-a e desejei não ter outra senão a ela. Qui-la para todo o sempre e para todo o sempre quis ser seu. Era tudo uma verdade para mim. Hoje, tudo que era uma verdade para mim rende estas palavras e um desconsolo incurável. Não deixei de amá-la. Apenas deixei de acreditar. E o que me aliviava o desespero, faz-me sentir um tolo. E não me faz deixar de amá-la. Isso dói. Dói mais ainda. E faz o contrário de aliviar o desespero.



V.

Sou. E sendo já sou ridículo. Sou porque não me resta nada a ser senão ser. Sou o que sou porque não me resta nada a não ser isto, ridículo. E se pudesse optar, não seria. E não sendo, não seria menos ridículo.


VI.

Há demasiadas coisas que não sei falar. Gostaria mas sou impotente. Somos todos iguais em alma e sentidos. Captamos tudo quanto possa existir. Sabemos de tudo que se possa saber. Só não sabemos dar por nós. Gostaria de ser o que é lido e retransmitido. Mas não tenho nada a transmitir. Acho que nem gostaria para ser sincero. As futilidades, vejo-as em mim. Na ganância de minhas palavras.

Há demasiada presunção em se fazer versos. Ainda que sejam versos ordinários. Que sujeito pensa ser o que sabe falar de sentimentos aos outros? Quem se pressupõe ter um bom conceito de estética? Nasci enxergando. Às vezes preferia não ver a ter este conceito de estética torto. A causa de todos os sofrimentos nascem dos conceitos de estética. Os olhos cegam a alma.


VII.

Sou o que nunca realiza seus amores. O que toma desejo por algo na medida em que se desconcentra do mundo. E depois se concentra em outra coisa na medida em que se esquece da vida. Sou o que nunca está satisfeito. Sempre com um desassossego n’alma. O que se apaixona por uma e ama a outra. Que carrega consigo a dor de não tê-la. E que ao tê-la, dói por não se estar só. A dor é um ente que me acompanha e me consola enquanto me dói. Já não sei andar só.

E os que me lêem os agradeço do fundo de meu coração. E os que me compreendem os amo do fundo de minha alma. E os que não me entendem, amo-os do mesmo jeito. Sou afável por não conseguir ser de outra maneira. E quando sou rude, perdoem-me, pois já sou o que não posso ser. Ao terminar estes versos saboreio um breve gozo de vitória como quem fez algo digno de entrar para História. De dentro de meu quarto apenas escrevo. Talvez compartilhe isso com a humanidade. Mesmo que professor nenhum de literatura me cite em movimento algum que nunca tomei nota. E ache características em mim que nunca tive pretensão. E me insira em uma vanguarda qualquer que morri desconhecendo. Se escrevo não é para se fazer poemas, pois se há presunção muita em se fazer poemas. Não tenho pretensão nisto. Se escrevo não é no intuito de querer fazer arte ou falar de sentimentos aos outros. Escrevo por não saber. Por doer. E quando dou por mim há um monte de palavras à minha frente.




Maceió, 13 de Janeiro de 2009

Um comentário:

Bio disse...

Escreves como o doente que vomita...como a mulher que pari....como o bebê que anseia pelo oxigênio ao nascer, como um cortador de cana faminto em cima do prato...Escreves por necessidade,uma evacuação ou mlehor dizendo,uma necessidade fisiológica da alma...
a transformação da dor em arte...
Betunia(aquela que sonha)