quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Agenor

Só poderia...
Uma alma sofrida
Dar numa caligrafia sofrida.
Rápida e doentia, ligeira,
Impensada.

Aqui com esta caneta,
Ao pé de um portão de embarque
Sem poder embarcar.
Com dó de mim mesmo.
Com pena do mundo e do Universo.
Febril em palavras desconcatenadas,
Sangradas de minha alma sofrida.
Nesta caligrafia que não podia ser, a não ser
Sofrida.

Às mazelas das estrelas das noites de meu ser,
Das avenidas fantasmas de minha existência.
Do mar frente ao meu ser,
(Como este portão de embarque a dar sua última chamada)
À maresia acariciando meu rosto,
Minha alma, minhas memórias...
Que saudade...Pobre me sinto...
(E com toda razão)

Sou qualquer coisa de saudade,
De passado, de sofrido...
Qualquer coisa de Adeus,
Do embrulho no estômago lado a quem se ama.
Defronte ao portão de embarque,
Sim!
A vida inteira tenho de ser o que está ao pé de um portão de embarque.
Arre! Ao menos uma vez me poupem de partir!
Levem-me daqui!
Tenham piedade!
Quero partir a outro lugar que não seja comigo!
Ou ir com quem se vai.
Mas não quero (ser) isto.
Sempre, sempre, sempre...
Esta angústia sem fim
De saber que o que é agradável corre por mim
Para um portão de embarque
E me acena do infinito para canto nenhum
Desconsoladamente...
O Adeus! Escreva-me!(Escrevo)

Sou e nada mais me resta ser, senão os minutos infinitos
Defronte ao portão de embarque. O nó da garganta. O Adeus...

Adeus!(Escrevo)

À minha casa distante de meu ser,
Dentro de mim...
Cruelmente dentro de mim.
Quero minha casa de volta,
Não este desconforto da alma,
Este nunca estar-se satisfeito com coisa nenhuma.
Quero-me sem discernimento...Vivo...
Não este nunca sentir-se íntimo de canto nenhum.
Quero-me em minha casa,
Não este forasteiro do Universo que veio a dar por mim
Que não guarda intimidade com nada que não seja sofrido.
Nesta caligrafia sofrida
Que não guarda intimidade com nada que seja calmo.
Quero-me de volta!
Não este desconsolado defronte um portão de embarque
Que dá pena.

JMottër, São Paulo, 1° de Janeiro de 2009, Quinta-Feira

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Abele

Nada é para sempre e hoje é infinito.
Soou o sino da catedral para a missa eterna,
Acendeu-se o candeeiro das almas que animam o espaço
E eclodiu a vida no universo numa concatenação perfeita rumo ao infinito
Dando em mim que dá nestas palavras concatenadas em frases sem ponto final.

A dor grande,
Que é grande por ser dor.
Finda enquanto o nada se há,
O tal nada que é tudo,
Tudo por ser dor.
Dor tão real quanto a vida,
Real por ser vivida a própria vida,
Ainda que nada seja o que é.
A tal vida que é dor, a tal dor que é vida.
E infinita num rumar para canto nenhum.
Imaginada, vagarosamente imaginada,
Ainda que real.
Que é como se tudo fosse o mesmo
E o mesmo fosse nada.
O tal nada que é presente. E demora na imaginação...

Carrega-me daqui, Ó, presente infinito.
Findo absurdo, de um ser absurdo.
Porque amanhã há de vir
Ainda que hoje seja infinito.
Hei de sair donde me sinto,
Pessoa a esmo do passado.
Junto de tanta coisa do passado,
Que vai perdendo o significado,
E se desfigurando na medida em que se desgarra da memória,
E é como se o tudo fosse nada.
Por que da dor?

Coisa parecida com gente, a anos, virão
E não se importarão comigo,
Com a casa de meus avós vagando em minhas lembranças.
Meus avós...
Apenas lembrança. Qualquer coisa do passado
Junto de tantas outras coisas que tudo eram
Outrora o tal presente infinito no alpendre da casa desgarrada do Universo,
Ao pé da cadeira de balanço
Escutando meu avô falar como se fosse Deus para mim.
O indefinido não existia e eu era eu e me bastava.
O Universo tinha sentido.
Acordar era porque já não se tinha mais sono.
O tudo como o presente infinito absoluto de agora que não passa,
E vagarosamente tarda.
Infinito, e é o mesmo
Ainda que hoje é ontem, amanhã e sempre.
Basta por hoje.
Carrega-me daqui, absurdo, para amanhã.
Pois hoje não me sinto bem,
E hoje é infinito.
Apenas lembrança desgarrada de tudo que é gente da Terra,
Do indefinido. Do adeus.

Adeus!

Numa partida infinita rumo ao nada.
Tal nada que é dor
E grande por ser dor.
Como lembranças são homens de anos antes
Aglomerados em coisa chamada memória
Inquietas em pensamentos angustiados.
Apenas um monte sem definição na memória de tanta gente.
Cada vez menos gente.
Amontoado sem rosto.
Amanhã apenas um monte de uma época longínqua,
Que não quer dizer mais nada
E era tudo.
Mesmo diferentes,
De outras épocas.
São apenas qualquer coisa do passado.
Sou qualquer coisa de passado mas sou quem vivo para sempre
Porque hoje é infinito e o adeus é para sempre.

Adeus!

JMottër, São Paulo, 22 de Dezembro de 2008, Segunda-Feira