sábado, 25 de outubro de 2008

Angústia

A caminho da escola, sempre atrasado
A caminho da escola, para sempre
Só porque é a escola que preciso ir agora
Para a aula porque preciso dela, penso precisar,
Alguém disse que eu precisava,
Quantas coisas me disseram e eu tomei como verdadeiras?
Como se precisasse mais do que tudo
Quantos desejos me sussurraram e eu os tomei como meus?
Não sei o que quero, só o que me disseram, o que tomei para mim,
Os desejos alheios sem saber precisar a razão,
Com uma fé cega, como se fosse sempre o que quisera,
Mas não sei o que quero, não sei de mim,
Ainda embora transpusesse qualquer coisa que obste meu caminho à escola
Então é ir à escola o que quero, suporia,
Mas o desejo do homem em seu padrão de medida,
Não se diz desejo por coisas cotidianas, tidas como pequenas
Ainda que tudo seja um milagre, as coisas pequenas inclusive
Como um milagre pode ser pequeno? Como se pode medir a grandeza de um milagre?
Nunca vi um milagre, ou os vejo todos os dias?
Galgando-me em desejos pífios, de sonhos pífios como eu, vou à escola
Para sempre, porque só o sempre existe
Acelero o carro no amarelo,
Mas o sinal fecha, e não consigo atravessá-lo
Quantas coisas quis atravessar e não pude...


Olho para o lado e vejo uma senhora a fumar,
Como se tivesse uma altivez planejada para se sobrepor a pessoas como eu,
Mas se é altiva não tem de ser planejada, talvez ela seja como eu, pequena
Vejo-a bem, melhor do que ela um dia pôde se ver, pois é como se me visse
-Acaricia o filtro do cigarro com os dedos, logo o põe na boca
Lá o acaricia rapidamente com a ponta da língua, como se fosse tudo planejado-
Pode-se bem se ver a angústia por detrás da máscara altiva que veste
Então, de certa forma, é minha angústia também,
Posso vivê-la como que se fosse minha,
E de fato realmente a é
Vê-se de longe
Vejo-me também, no espelho do carro, na senhora que me serve de espelho
Penso não ter nada a me afligir, exceto o atraso, a angústia da senhora que abracei como se fosse minha
Não há minuto sequer vivido por mim sem aflição
Então o sinal abre, dobro a direita, a senhora vai reto, para sempre
Toda sua vida foi minha, e toda minha vida foi dela, mas o sinal abriu e seguimos adiante,
distantes um do outro, provavelmente jamais a verei de novo, e se a vir não a reconhecerei...
Sinceramente, não me importo
O único som que me interessa é o de meu coração

Ligo o som do carro, pondo na rádio
Está a tocar uma música que conheço bem, costumava gostar dela,
Apesar de estar um pouco enjoado,
Mas na rádio o fator surpresa faz com que eu a tolere,
E até volte a gostar dela,
Penso que talvez eu nunca tenha deixado de gostar dela,
O que é enjoar-se então senão deixar de gostar?

Paro para tomar um café, sempre o café,
Consola-me mais que a vida uma xícara de café
Na cafeteria, então, servem o café à minha pessoa, estendo a mão agradecendo,
Como se estivesse faminto, e uma alma altruísta me servisse um prato de comida
Ponho-o na boca, sinto bem seu cheiro
-como me sinto bem, adiantando a aula que já estou atrasado, protelando o momento que não quero-,
Percebo então que o futuro ainda não é, e quando for já não é mais,
Minha existência se resume a esta xícara de café defronte,
E eu a consumo

Saio da cafeteria, entro no carro,cada vez mais atrasado para a aula...
É de Teologia,
Qual ciência poderia falar da intersecção entre o que meus olhos vêem e o que meu coração pode sentir?
Se isso ela pudesse, garanto que não estaria atrasado, nem protelando minha chegada à aula, nem consumiria minha existência, tampouco a mim

No carro já, acelero, mas não consigo mais acelerar,
Pois há tantos carros atrasados na rua quanto eu,
Tantas intersecções angustiadas quanto a vida
Chego finalmente ao cruzamento da avenida principal,
Paro em mais um sinal vermelho,
Têm crianças lá que vêm em minha direção, param defronte à janela
E me vêem do lado de fora do carro...
Devem pensar:
“-Este sim é que leva uma vida boa.”
Então elas pedem esmolas,
Digo que não as tenho (e realmente não as tenho), mas sou gentil,
Por que eles e não eu estão a pedir esmolas?
Sinto culpa, por isso sou gentil,
É como que se me desculpasse

Se eu fosse pedinte não moraria nesta cidade,
Viveria na praia...Mas por que não estou agora na praia?
Penso que tenho que ir à aula ao invés de estar na praia;
Mas bem sei que se estivesse na praia, pensaria que teria de ir à aula ao invés de estar na praia,
Estaria angustiado, insatisfeito por não estar onde julgaria que deveria estar,
Mas estando onde deveria estar, veria que não é ali que deveria estar...
Estaria angustiado mais uma vez
Talvez donde vim era o lugar certo, mas regressando lá
Não reconheceria o lugar que havia deixado,
E me sentiria perdido, um estrangeiro a cada cidade, sem casa,
Um pedinte querendo ir à praia

Seguindo à escola passo por algumas bancas de flores,
Se eu tivesse uma namorada sempre pararia nestas bancas para lhe comprar flores
Sei que é mentira o que digo, quantas namoradas e oportunidades tive pra lhes levar flores,
Mas sempre estive um tanto atrasado para poder parar na banca de flores,
Sempre preferi o café às flores que fariam minha namorada feliz por um instante
Mas o que é viver senão perseguir as felicidades de um instante, para que então possamos finalmente nos sentir completados?

Chego à garagem onde estaciono,
Cumprimento o porteiro levantando a mão, como sempre faço, só porque faço agora,
Como que se pedisse desculpas por ele ter de abrir o portão para mim todos os dias
Então ele pensa:
“-Este sim é que deve se sentir completo.”
Saio da garagem e passo apressado pela esquina que sempre há mendigos bêbados,
Um deles me conhece, seu Osório, sempre me pede dinheiro para beber...
Hoje ele não está bêbado e mal apanhado,
Está com a barba feita, sóbrio, sentado em uma mala, olhando-me com um olhar constrangido
Cumprimento o seu Osório,
Como se pedisse desculpas por ele ser mendigo e bêbado,
Diz-me ele que não irá mais beber
Os outros mendigos zombam dele, estão bêbados
Sei que seu Osório não quer mais beber, torço para que ele consiga, como uma espécie de inveja ao contrário, torço
Mas sei bem que amanhã, ou depois, vê-lo-ei como de costume, a me pedir dinheiro para beber, mal apanhado, e com a barba mal feita, caído naquela mesma esquina, sobre a mala aberta
Olhando-me entregue, e não mais constrangido
E eu então darei o dinheiro para que ele possa me desculpar

Chego finalmente à sala, não estava tão atrasado, mas me sentia como que se estivesse,
Pois é assim que me sinto toda a vida
Sempre a me sentir como que precisasse chegar antes do que posso a um lugar que não existe
A compromissos fundados comigo mesmo
Sempre este sentimento de se estar atrasado, de se estar errado diante dos outros,
De pedir desculpas por se estar vivo, a cabeça baixa com o olhar de esguelha por debaixo de minhas vergonhas, de meu complexo
Sempre esta angústia incrustada em meu espírito,
Esta insatisfação injustificada cravada em minh’alma
Este furacão caótico de sentimentos em meu ser,
Que tanto me lança às nuvens quanto me arremessa com violência ao chão,
Não sei discernir o que sinto, mas sei que sinto algo, e não me sinto bem
Sempre a desejar a praia, e quando estiver dentro do mar desejar a aula, e novamente desejar a praia, porque era na praia que era feliz
O “por favor”, “obrigado” e “desculpe-me” que me asfixiam
A namorada certa por vir, porque com a passada não poderia ter sido feliz,
E quando me vejo com outra, foi com aquela que fui feliz
Por que nunca levei flores para ela?
Sempre a me doar mais do que posso, e achar que nunca é o bastante
A doar-me exaustivamente em versos como estes, escritos na aula maçante de Teologia,
A sangrar no papel minhas dores
E me martirizar por não atender minhas próprias expectativas,
Ou será a expectativa que os outros têm para mim, e as tomei como minhas, até crendo nelas?
Sempre a pensar que tudo que posso, tudo que tenho não é suficiente,
A certeza de que há o melhor de mim, e esse melhor, mesmo meu, não me pertence
Galgado em sonhos de gente medíocre, minha vida se dá nos versos que escrevo,
Acanhado no canto da sala, durante a aula
Sou tão viciado quanto seu Osório,
Ora sóbrio sente uma atração incontrolada pela bebida,
Ora bêbado, sente-se arrependido por ter bebido, então vomita o que lhe enjoa,
E o que é enjoar senão deixar de gostar?
Mas se deixou de gostar por que voltar a beber?
Por que nunca tentei ajudar o seu Osório?
Sempre a felicidade protelada para o dia seguinte, que ficou ontem
Sempre faltando um dia para ser feliz, um dia a mais de ter sido feliz
Por pouco de não ter sido feliz, mais um objetivo e me completo
Mas o futuro não vem, pois ele não existe
Ninguém vive o futuro, só o que nos cerca
Tudo que me resta está ao meu derredor, galgado em sonhos pífios como eu,
Sonhos como a vida, como ser pensante, como Pessoa,
Pífios como eu, como ser que não pensa, porque só sente; como pessoa
Na altivez forjada da senhora do carro ao lado, no cigarro dela, na minha xícara de café...
Pessoas como eu nunca estão felizes, sei como sou e aceito minha própria condição,
Como um doente terminal se resigna à morte, e quando ela chegar perguntarei:
Por onde esteve que tanto demorou a me achar?
O passado não existe, só a lembrança

Esta agonia presa em minh’alma
Este não sei o quê desesperador em meu ser
Esta aflição incessante de meu espírito
APIEDE-SE!!!
Por favor ou por pena...
PARE!


E amanhã acordarei do pesadelo que é hoje, e então amanhã volverpa a ser hoje
E hoje, já ontem, mais um dia se foi, mais um dia virá, mais um dia é...
Sei bem o que farei, pararei em sinais vermelhos, viverei a angústia alheia do carro de lado, estarei atrasado para uma aula que já não é mais de Teologia, irei tomar uma xícara de café, pois ela me consola mais que a vida, e o garçom, ao me servir, falará:
-Aqui está seu café, senhor!
Eu olharei para ele e direi sério, procurando ser afável com o moço, e responderei como que se me desculpasse:
-Não carece de me chamar de senhor, amigo.

JMottër, São Paulo, 25 de Outubro de 2008, Sábado

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

América

Sinceramente, a única coisa sincera que possuo agora, é a sinceridade de dizer o que vos digo. Sinceridade de admitir que não tenho nada a dizer, mas digo assim mesmo, de dizer coisas que todos sabem bem, e mentir sobre o que não há como mentir, pois todos sabem bem da verdade. Admitir que sou deficiente em demonstrar o que sinto, incapaz de escrever sobre meus sentimentos, então tomo o dos outros como meus, e os vivo como verdade. O que de mim poderia dizer que interessasse? Como uma criança a querer a atenção da mãe.

Sei que há algo dentro de mim, assim como dentro de todos, mas não saberia demonstrar neste texto, não sei exteriorizar aos olhos dos outros. Mas por que esta preocupação sobre o que os olhos dos outros vão enxergar? A mim, ou a pessoa nestas palavras? Sei que há algo dentro de mim, mas não sei precisar o quê, como a América para os navegadores, que intuíam haver algo além-mar que mudaria o mundo, mas não sabiam precisar o quê, tiveram de se lançar ao mar para descobrir. Dentro de mim há alguém que venho tentando conhecer, para mudar meu mundo, tenho que escutar o murmuro de minha intuição e me lançar ao mar caótico de sentimentos dentro de mim para conhecê-lo.

E agora, neste texto, talvez só neste texto, estou pouco me importando em fazer algo bom, em deixá-lo bom, coerente e compreensível; pois, se assim fosse, seria falso como o sujeito que os outros enxergam. Porque das coisas que há dentro de mim, de boas, coerentes e compreensíveis não têm nada. Há muito esqueço de ser o que sou, só o que vêem, ao ponto de chegar a acreditar no que viam, e quando me vi para dentro, fiquei estarrecido com o que enxerguei...Que sujeito medíocre tenho sido.

JMottër, Maceió, 17 de Outubro, Sexta-Feira

domingo, 12 de outubro de 2008

O evangelho segundo São Paulo

São Paulo é deveras importante como cidade,
Mas não é tão importante quanto minha cidade,
Ainda que quase ninguém se importe com minha cidade.
Em São Paulo há os melhores bares, cafés e restaurantes;
Bem, na minha cidade há bastantes coisas boas também...
Há a padaria do seu Pepe na esquina, o coco do seu Geraldo na quadra de areia da praia, o café mal feito da melhor cafeteria de todas as galáxias...
Em São Paulo vê-se estrelas desfilando pelas ruas,
Já na minha cidade elas desfilam pelo céu.
Lá, quando não se tem nada para fazer, só se vive,
E se vivendo por lá, já se sente completo, pois se viver por lá já é bastante,
Resume-se a si mesmo, justifica-se por tudo, para tudo e para todos.
Em São Paulo sempre se tem algo por fazer,
Para que se possa sentir-se completo.
Sempre há algo para se justificar, pessoas se justificando todo o tempo,
Por tudo, para tudo e para todos.
Minha, querida, cidade jamais se esquecerá de mim, quero acreditar nisso,
Muito menos eu dela, quero acreditar nisso.
Minha querida cidade é-me só uma lembrança,
e como me é pesada tal lembrança por ser tão feliz.
São Paulo, para mim, era apenas o Santo que falava de amor,
Que equívoco, parece-me então, terem batizado esta cidade com o nome desse Santo.

Daqui de São Paulo se sai,
Por estradas que nos levam a outras cidades também batizadas com nomes de santos,
Sem se mudar de paisagem, sem que percebamos que se tenha mudado de cidade, de Santo.
Lá na minha cidade ao se sair por estradas, não se chega a canto algum,
As estradas que percorremos são as de dentro de nós,
São as de nossa alma, secas e desertas,
E nas estradas de lá a paisagem também não muda muito.
E embora não se chegue a Santo algum,
Deparamo-nos com alguns santos de romarias que bloqueiam as estradas,
Lá, mudar de Santo não é coisa que se cogite.

Há milhões de pessoas em São Paulo, mas é raro se ver pessoas de São Paulo;
Milhões de pessoas, aqui, como eu,
Que deixaram suas cidades que ninguém nunca ouviu falar.
Há poucas pessoas na minha cidade, mas é raro se ver quem não seja de lá,
Quem não deseja do fundo d’alma se perpetuar por lá, porque por lá só se vive.
Quem vive em São Paulo quer partir de São Paulo;
No entanto, não pára de chegar gente por aqui,
Não menos obstante, ninguém sai mais de São Paulo.
Como tantos filhos de cidades amadas desconhecidas,
Sinto-me como o desertor da pátria por ter abandonado minha querida cidade,
Ter mudado de Santo.
Temo jamais sair daqui, e nunca mais voltar à minha cidade,
E se voltar, que cidade encontrarei? Aquele que deixei?
Temo ser mais um a contribuir com isto. Não quero viver a me justificar,
Para mim viver já basta, pois viver já se justifica.

Lá na minha cidade,
A vida é tão vivida, tão só viver, que até se esquece que se está vivo,
E se acaba esquecendo de viver, e quando se dá por conta,
O tempo alheio à nossa distração já se passou.
Em São Paulo, a vida está sempre adiada para depois do compromisso,
Que se acaba se esquecendo de viver, e quando se dá por conta,
O tempo alheio à nossa distração já se passou,
Isso elas têm em comum...

Ocorreu-me que, agora então, já se começa a ficar coerente que,
esta cidade(refúgio de almas desertoras saudosas)tenha sido batizada com o nome do Santo, foi ele mesmo quem disse:
“(...)Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.”...

JMottër, São Paulo, Domingo, 12 de Outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Aí estão suas flores

Amo porque amo, pelo bel prazer de amar
Amanhã cedo, acorda-la-ei com flores
E em nosso amor olvidaremos nossas dores
Daí então iremos de mãos dadas a ver o mar

Creio nela, pois não há nada mais que nela crer
Que feliz me sinto por ter tamanha sorte
De tudo que sei, todas verdades de meu ser
Acredito não ter fim meu amor mesmo em morte

Pensar nela é esta agonia a todo instante
Amo porque amo, simplesmente por muito amar
Amo porque a amo, pois isto já é-(me) bastante

Com ela me sinto em casa, pois ela é meu lar
Vil ledo engano amar, por motivo algum, assim
Amá-la é por amar, é crer meu ser não ter fim

JMottër, São Paulo, 10 de Outubro de 2008, Sexta-Feira