quinta-feira, 18 de setembro de 2008

D'alma

____Subo pela ladeira das campinas escutando o ronco dos motores.
____Subo pela ladeira das campinas dentro de mim.
____A viver em meu mundo e esquecer do outro.
____Vivo dentro de mim por mim mesmo, para mim mesmo, além disso não há o quê possa existir.
____ Os carros vêm e passam acelerando cada vez mais para chegarem ao seu destino, -tão alheios a mim quanto eu a eles-.
____Já não escuto mais o ronco de seus motores, só o meu coração.
____Não me sinto diferente, ora penso que meu espírito leva meu corpo para aonde ele quer ir, para chegar ao (s)meu destino. Ora penso que meu corpo carrega meu espírito...
____Ao topo das Campinas, pensamos, então andamos lado-a-lado, partes de um só, como partes do todo, tão íntimos, tão seguros um do outro, resta nada a um senão o outro, e para o outro senão o um. E para os dois senão subir pela ladeira das campinas. Lado a lado, partes de um, partes do todo, mesmo alheios ao todo.
____A dor na carne se resume a um ponto. A dor no espírito a mim todo. Não tem começo, não tem fim.
____Sem pretensão, então, enquanto subo pela ladeira das campinas, ponho uma mão no bolso a balançar as moedas que há lá, ponho a outra mão no outro bolso à procura do chiclete, de anteontem, na calça que ainda não foi posta para lavar...(Lembro-me de ter sobrado um no pacote, e que o havia ali deixado).
____Cada vez mais próximo do fim da ladeira das campinas, passo por um ser a me pedir esmolas, saco-as automaticamente do bolso, quase que sem perceber, onde me serviam de brinquedo apenas e as lhe dou. Invejo-o de certa forma, pois ele sabe bem o que quer, para ele tudo consiste no óbvio de conseguir moedas; já eu nem sei por que subo pela ladeira das campinas, que é tudo o que me resta, tudo que me faz existir.
____Finalmente acho o chiclete! Estava certo de que estaria nesta calça, que ainda não foi à lavanderia! É de menta, meu predileto! Ponho-o na boca...Como é gostoso mascá-lo com esta verdade...Sinto-me feliz por mascá-lo. Mas a certo momento o gosto dele cessa. O que me deixava feliz cessou naquele chiclete. Não há felicidade que não cesse. O que me deixava feliz foi consumido por mim mesmo até cessar. Esvaiu-se por dentro de mim para canto algum.
____Depois, então, lembro-me que com aquelas moedas, que me serviam de brinquedo um pouco antes de servirem de esmola, serviriam-me para um café. Ao concatenar as idéias sinto um tanto de raiva daquele pedinte, mesmo que saiba que ele não tenha tido culpa, tampouco eu a tive, penso eu, mas mesmo assim me culpo. O café também me traria felicidade, mas se esvaiu antes de se constituir em felicidade para mim, antes que eu pudesse consumir o que seria minha e só minha felicidade.
____Então desço pela ladeira das campinas, para o local de onde vim, com as mão nos bolsos que já mais nada têm; com aquela habitual angústia que meu rosto mostra bem, que não sei precisar por quê, que não sei de onde vem ou para aonde vai, se é parte de meu corpo e nele cessará, se é parte de meu espírito ou se é o resultado de mim como todo, tudo, tal como a ladeira que agora desço.
____O que me restaria da vida senão andar distraidamente sem saber o porquê, de brincar com moedas e dá-las a quem não precisa mais do que eu, e procurar chicletes e finalmente achá-los, e depois vê-los perder a graça dentro de mim mesmo, e a pensar culpando outrem, culpando-me, que por um acidente, descuido, distração, não pude ser mais feliz do que fui?

JMottër, São Paulo, Sexta-Feira, 19 de Setembro de 2008