sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sonhos

Do tempo

É no mínimo estranho pensar num tempo finito, ainda que tudo o que conheçamos seja finito. Suponhamos que daqui de trilhões de anos, todo o universo desapareça, o tempo desaparecerá com ele? Depende, no vácuo absoluto, onde nada existe, não existiria o tempo. Pois o tempo necessita de um mínimo de matéria para agir, pois, juntamente do espaço, ele constitui a própria matéria. Todavia, não há sinais de vácuo absoluto no universo. Admitamos, então, que ele seja infinito. Ora, se algo é infinito, tal como o tempo, não há o quê possa se comparar a ele, pois trilhões de anos se comparados ao infinito, serão tão pífios quanto milésimos de segundo se também forem comparados ao infinito. Portanto, milésimos de segundo, anos, décadas, trilhões de anos, perante o tempo -que é infinito- se equivalem. Isso me leva a crer que toda a história do universo, com todas as suas galáxias e formas de vida, existe num contínuo presente infinito, e está inscrita dentro de qualquer partícula de matéria do universo. Tudo é presente e infinito, o tempo constitui parte de toda matéria, e ele é presente e infinito. Mas, se em toda matéria há tempo em sua composição - o qual é constante, presente e infinito- e as matérias envelhecem, envelhece também o tempo? Não. Assim como tudo o que existe não envelhece. Tudo e todos são constantes no infinito presente do tempo. Toda a história de tudo e de todos, nascimentos, mortes, invenções geniais...Ocorre agora, ontem e para sempre.

Do que sinto

Consigo lembrar de coisas como se estivessem de novo ao meu redor. Um dia elas estiveram, mas se tornaram lembranças e não estão mais ao meu redor. Ainda que possa senti-las uma vez mais. Pego-me muitas vezes indagando se realmente estiveram ao meu redor. O homem faz estradas ligando cidades, para que outros homens cheguem e saiam das cidades, faz carros, aviões...Mas nada disso me parece real, por mais que consiga apalpá-los. Sinto falta de tanta coisa, mas de nada que um dia pude apalpar, de que pude ver, cheirar; pois penso que nada daquilo que possa lembrar tenha existido. Lembro-me sem barba, lembrar-me-ei de quando não tinha rugas, lembrar-me-ei de quando escrevia o que escrevo. Lembro-me de muitas coisas, mas não consigo lembrar como eram de fato, se é que de fato eram. Há deveras metafísica em se olvidar das coisas como de fato eram. É como se tudo sempre estivesse em minhas lembranças, como um ator a esperar para entrar em cena com seu texto previamente decorado não gerando surpresa alguma em mim, espectador. Talvez sempre tenha vivido eu mesmo ao meu lado, porque o que vejo é pífio comparado ao que acredito existir, inclusive eu comparado a mim mesmo. Meus olhos, meus sentidos não captam o que posso sentir, ainda que eu sinta e veja com uma fé cega as coisas que existam de além; e pressinta como deva ser de fato senti-las. E das coisas que sinto, vejo, apalpo...Duvido muito delas. Demoro a percebê-las, como alguém que escuta um idioma estrangeiro e leva tempo para traduzi-lo internamente para si e gerar uma resposta razoável para um pergunta fútil qualquer.

Breve elucidação lógica da existência da alma(inteligência e sentimentos incorpóreos)

Se amo, o que é em mim que ama? Meu cérebro!? Então não estaria menos correto em dizer que meu pé ou pulmão ama algo. Quando eu amo algo, o que em mim é que ama? O meu conjunto (pernas, cérebro, coração, genes...)? Não estaria outra vez menos certo, portanto, em dizer que meu pé ou coração ou tripas ama algo. Acho que o amo(meu conjunto corpóreo -pernas, cérebro, coração, genes...-) mais do que ele a mim. E remetendo de forma ratificada o que disse: se eu o amo(conjunto), e em mim o que ama é ele, sou eu que amo a ele julgando, incorretamente, amar a mim... Não! Está, dessa forma, coerente que a matéria é incapaz de amar. De certo que não me resuma a meu cérebro. Nem a minhas pernas, cabelos, braços, palavras, idéias... Meu início e meu término não se resumem a isso.

Do que sinto(continuando)

E de tudo o que me falta, é aquilo que sempre me faltou. Tudo se apresentava tão certo. Tão exato. Pois que quando a metafísica a mim se mostrou, o resto me esqueceu. Faltam-me os dias em que o óbvio realmente era óbvio. Escovar os dentes constituía-se apenas em deixá-los limpos, e não em indagações mais complexas além do óbvio de escová-los apressado e ir dormir. A parede se constituía em tijolos e alvenaria, e não em obstáculo à minha existência. Caminhar pela praia era pelo prazer da carícia das marolas em meus pés, e não esperando que naus vindas do além mar, com respostas em que neste mundo não há, salvassem-me do abismo que mergulhei.

Da genialidade

O que faz de um homem gênio? Nascer assim, ainda que levem uma vida ou mais para reconhecerem-lhe sua genialidade? Não se faz gênios do dia para noite, ainda que eles tenham nascidos gênios. E gênios, têm certezas maiores sobre o óbvio? Caminham, simplesmente, pela praia? Atravessam paredes? Acreditam mais em seus cérebros do que nas outras coisas? Conseguem perceber como as coisas são de fato e a posteriori lembrarem-se delas? Postam a cabeça no travesseiro, depois de escovarem os dentes, com mais verdade que os ordinários? Ou com o mesmo peso?

Do sonho

Não sei o porquê da distinção que há entre o sonho e a vida. Pois para que se possa sonhar tem que se estar vivo. O sonho não é diferente da vida, é parte dela. Porque é bem verdade que mortos não sonham. Ainda que sejam personagem dos sonhos dos vivos. Ora, se viver implica em sonhar, e não há realidade maior que a vida, a vida é um sonho, e o abismo infinito que mergulhei é o mundo.

JMottër, São Paulo, 23 de Agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Norte

Eduardo olhava pela janela de seu quarto, por entre a poluição, para dois homens no prédio defronte, pendurados em andaimes, limpando janelas. Pensou, mas sem menosprezo algum, que poderia ser muito bem ele no lugar daqueles homens, limpando janelas em um dia de Domingo. Então, olhou para si e agradeceu a Deus por ter a vida que tinha. Estava fazendo os últimos ajustes em sua monografia. Estava fazendo os últimos ajustes nas atas para a reunião da próxima manhã. Estava fazendo os últimos ajustes, por telefone, com Paula, no encontro que teriam mais tarde. Sentia aquela habitual angústia dos fins de tarde dos domingos. Mas, estava feliz porque finalmente iria sair com a menina de que gostava. Finalmente iria ficar de férias, na quarta-feira, após a apresentação de sua monografia. Finalmente iria ser efetivado, após formado, na empresa a qual trabalhava. E, então, finalmente iria morar só – já havia inclusive achado um apartamento justo para si-.

Olhou sua agenda com regozijo pois havia pouca coisa para se fazer naquela semana:

Segunda haveria a reunião da empresa, última do ano. As oito horas.

Terça teria o dia livre. Guardou-o para os últimos preparativos em sua monografia.

Quarta, pela manhã, apresentaria a monografia. Guardou a tarde para sair com a família para almoçarem juntos.

Quinta a noite iria jogar bola com os amigos. Teria a tarde livre. Pensava, portanto, em sair com Paula novamente, caso as coisas corressem bem com a moça. Estava apaixonado.

Sexta, véspera de natal. Iria buscar alguns parentes que não via há alguns anos no aeroporto. Os quais iriam passar o natal em sua casa. Ansiava pela data pois sabia que iria ter momentos agradáveis naquele dia.

Já a semana subseqüente teria livre. Viajaria com os amigos para o litoral, onde iriam passar o ano novo. Iria chamar Paula porque muito lhe agradaria sua presumível presença. Sabia que seria uma semana bem divertida, a qual, também sabia, que iria se recordar com muita saudade.

Olhou para o relógio e percebeu que estava atrasado para o encontro com Paula. Tomou banho e se trocou rápido. Foi à sala. Pegou a carteira em cima da mesa e a pôs no bolso detrás da calça. Observou os pais e o irmão caçula no sofá. Aproximou-se e se despediu de todos. Deu atenção maior à mãe, a qual beijou na parte de cima da cabeça. Sabia que ela se sentia orgulhosa com suas demonstrações de afeto. Saiu de casa e entrou no elevador. Olhou-se no espelho do elevador e penteou os cabelos com a mão. Chegou à garagem. Entrou no carro. E saiu do prédio cumprimentando o porteiro. Porém:

Alheio à Paula que esperaria irritada pelo atraso.

Alheio à sua falta na última reunião do ano.

Alheio à apresentação de sua monografia.

Alheio à sua efetivação na empresa. Ao seu futuro promissor.

Alheio às festas de final de ano.

Alheio ao prazer de rever seus parentes.

Alheio à sua agenda.

Alheio à semana de férias.

Alheio à sua paixão por Paula.

Alheio aos jogos de bola com os amigos.

Alheio ao beijo no topo da cabeça da mãe.

Alheio à felicidade de seus pais. À família feliz que iria construir.

Alheio à vontade de todos.

Eduardo esqueceu-se de anotar em sua agenda um compromisso que teria pontualmente as dezessete horas e vinte e três minutos, de um Domingo, dia dezenove de Dezembro, no cruzamento da rua Desembargador Luís Antônio com a Avenida Marco Polo.

JMottër, São Paulo, 4 de agosto de 2008