terça-feira, 15 de julho de 2008

Bom dia, senhor, Rômulo o aguarda

Tudo sempre pareceu estranho, alheio, inútil...
Simples gestos: dizer um bom dia, ou rir na hora certa, segurar no corrimão para não cair, sorrir por reflexo e educação, segurar o riso quando finalmente tenha achado graça...
Lembro do tempo que amava o lugar onde vivia, hoje não há lugar que eu ame, então vago em busca daquele lugar, mas ele se perdeu no tempo. Agora, os lugares onde me encontro servem apenas de cenário para minha ausência.
Observo terceiros a fim de reproduzir seus gestos cotidianos, imitá-los, executá-los, sem saber o porquê, sem questionar a finalidade, pois eles parecem saber mais de como se viver nesse mundo. Quero fazer parte, também, do cenário e passar despercebido.
Encontro-me em estado de sonambulismo perpétuo, nada parece palpável, não vejo pessoas, não há sentido em pessoas quando elas são fantasmas em potencial. Tudo me parece supérfluo quando se sabe para aonde se vai.
Há coisas que todos sabem, e todos sabem que todos sabem, mas não é falado por ninguém.
Penso que a morte não igualará os homens, tampouco os manterá tais como aqui estão.
Talvez o infinito iguale os homens. Pois, bilhões de anos são pífios diante do infinito, milésimos de segundo se equiparam a bilhões de anos, pois são igualmente pífios se comparados também ao infinito. Conceitua-se infinito, mas não há modo de o entendermos. O infinito constante me consola. Tudo ocorre aqui e agora, uma vida em um milésimo de segundo, todas as vidas em um milésimo de segundo, infinitamente. Nasce-se. Procria-se. Morre-se, tudo no presente do infinito constante, pois uma vida se equipara a um milésimo de segundo se ambos comparados ao infinito. Neste exato momento os bárbaros estão chegando a Roma, Paulo está espalhando o ideal cristão em Roma , que ainda parece imbatível.
Escrevo, lêem, nasço, apaixono-me, procrio e morro no mesmo instante. E não obstante, o tempo passa sem meu consentimento, mais um dia vem sem que eu queira; então, hei de me concentrar para reproduzir os reflexos cotidianos mais uma vez, mesmo achando inútil e fútil. Quiçá tudo mude, saia na rua e veja Rômulo Augusto sendo deposto –penso que ainda não será, infelizmente, dessa vez-. Saio, pois, do elevador...Caminho em direção à rua, e antes que saia, escuto um fantasma lembrando-me que sou alheio a tudo, exigindo que eu o imite agindo por reflexo tal como ele, murmurar numa afável voz, com um sorriso igualmente afável rosto -talvez ele realmente goste de mim, penso-, enquanto me acena da guarita de porteiros:
-Bom dia, senhor!

Juliano Motter, Maceió, 15 de julho de 2008