sábado, 10 de maio de 2008

Estamos todos bem

Mamãe faleceu numa manhã ensolarada do dia 28 de abril. De longe, foi a pessoa mais forte que já conheci. Mesmo perto de sua morte, não aparentava sua fragilidade, o que me levava à crer que ela era, de certa forma, imortal.
Durante toda a minha vida, nunca a vi com homem algum. Tampouco soube muito sobre meu pai. Ela sempre me dizia que ele havia morrido, embora, eu sempre intuísse que era mentira. Ao perguntar a meus familiares sobre meu pai, sempre era ludibriado. Não demorei muito para parar de me importar com tal assunto, provavelmente por por medo. Certo dia, ainda em minha infância, perguntei a ela se não tinha vontade de arranjar algum namorado, ela respondeu que eu já era o homem da casa, portanto, não havia necessidade de outro. Lembro-me que fiquei com meu ego de criança bastante inflado. E foi assim por muito tempo, eu sendo como o homem da casa. Éramos um casal perfeito, vivíamos felizes como se fosse para sempre, não nos faltava nada.E apesar de ter me criado em um âmbito bastante propenso para me tornar uma pessoa mimada, não considero que o tenha sido.
Tive apenas uma única mulher em toda minha vida. Talvez, isso tenha se dado, por ter sido educado somente por uma mulher. Tive com minha ex-esposa duas meninas, minhas princesinhas. Sempre me esforcei para ser um bom pai. Policio-me todo instante, para nunca faltar com a atenção às minhas filhas, ainda mais depois de meu divórcio. Por conta disso, esqueci bastante de mamãe nos últimos anos de sua vida, visitando-a em raras vezes.
Embora, em se tratando de velhos, a morte seja esperada por todos, inclusive por eles mesmos; não imaginava àquele momento o óbito de minha mãe. Estava voltando minhas atenções a outros assuntos de minha vida, tais como a separação e a situação de minhas filhas, e fui pego de surpresa. Obviamente, fiquei estarrecido com a notícia de sua morte, e a consciência me pesou por nunca mais ter oferecido atenção a ela. Lembro que toda vez que a visitava, ela ainda me tratava como se fosse eu, uma criança, preparava-me algo para comer e me fazia recomendações enquanto comíamos, perguntava das netinhas e se havia me reconciliado com sua nora, eu sempre respondia: “-Estamos todos bem. Não precisa se preocupar”. Não cheguei a informá-la que já havia me divorciado em vias de fato.
Dona Carla, uma senhora, amiga de mamãe, quem a encontrou morta, sentada no sofá da sala, ao mesmo tempo em que o vinil no som girava já sem emitir nenhuma música. Imagino sempre a situação de sua morte, no que poderia estar pensando ela? O havia feito naquela manhã até então?
Recentemente fui visitá-la, somente quando ia bater na porta é que me dei conta de que ela já havia morrido. Fiquei muito mais triste àquele momento do que quando fui informado da morte de fato. Mesmo assim, entrei em sua casa, a qual está a venda. Olhei para a poltrona em que ela foi encontrada morta, e decidi ir me sentar, ao me sentar percebi que o vinil ainda estava lá no som. Recordei-me de quando ela era jovem, e eu criança; de como era quando ela ainda tinha vigor, as tardes em que escutávamos música juntos, naquele mesmo som, enquanto arrumávamos a casa. Fui, então, até o som para ligá-lo, para saber o que ela escutava quando morreu, talvez fosse alguma música daquelas tardes.
Terminou de arrumar a casa, como fazia diariamente, a velha senhora. Recordou do ex-marido, o único homem de sua vida, o qual nunca chegou a ser realmente seu marido. Recentemente pensava muito nele; se ele se casara de novo; se ele havia tido outros filhos; se ele estava ainda vivo. Até começar a sentir raiva dele e fazer força para parar de pensar sobre o assunto. Pensou o quanto seu filho estava parecido com o pai, ainda que não quisesse admitir que o pai era um homem muito mais bonito. Sentia falta de seu único filho, que nunca mais a havia visitado, e quando a visitava, era sempre em visitas rápidas. Lembrou-se de como costumava dançar com o ex-marido. Decidiu, então, colocar um antigo vinil para recordar. Colocou-o no aparelho de som, sentou-se na cadeira para esperar sua amiga, como vinha fazendo, todos os dias, nos últimos anos, e pensou o quanto ainda era apaixonada pelo ex-marido. Enquanto o vinil rodava, podia ver a si mesma, em uma imagem cada vez mais nítida, dançando na sala, como naquelas tardes felizes, que pareciam ser infinitas, com o único homem que amou em toda sua vida:

“Crazy, I'm crazy for feeling so lonely
I'm crazy, crazy for feeling so blueI
knew, you'd love me as long as you wanted
And then someday you'd leave me for somebody new
Worry, why do I let myself worry
Wonderin', what in the world did I do
Crazy, for thinkin' that my love could hold you
I'm crazy for tryin', I'm crazy for cryin'
And I'm crazy for lovin' you
Crazy, for thinkin' that my love could hold you
I'm crazy for tryin', I'm crazy for cryin'
And I'm crazy for lovin' you”