segunda-feira, 21 de abril de 2008

Saudade

Na língua espanhola, e em qualquer outra língua, não existe palavra equivalente à saudade. Porém, há no dialeto galego (no noroeste de Espanha, às margens do Atlântico) um vocábulo expressando a falta de algo ou alguém, também em forma de substantivo, é a: "Morrinha". Mas por que tal vocábulo não foi até hoje aderido pelos falantes de espanhol, limitando-se apenas a atuar naquela região de Espanha? Nunca têm, os espanhois, ou os alemães, ou os franceses, ou qualquer outro povo que seja, o sentir-se impotente da saudade? Penso que seja pelo fato de os portugueses, detentores da palavra "saudade", terem recebido de Deus o dom de navegar, o que resultou na missão de navegar. Tendo à frente, uma linha fria e infinita -a qual divide o Céu da Terra, a meta divina da terrena- , deixando para trás a felicidade que se constituiu em saudade. Assim, também, os galegos. Portanto, falantes da língua portuguesa, galegos ou navegadores, nascemos condenados à saudade, à morrinha e ao adeus. Se sinto saudade, é porque fui feliz àquele momento. Mas os próprios navegadores constataram que a Terra é redonda, e a saudade deixada atrás foi ressurgindo, tal quanto a fria linha do horizonte, desfazendo-se, reconstituiu-se na feliz praia da qual se partiu.

Juliano Motter, São Paulo, 21 de Abril de 2008