sábado, 15 de março de 2008

Mensagem

Do nascimento, da dor e da Felicidade


-"Acorda"



-Que horas são?



-"Não há a hora. Apenas acorda."



-Mas por que?



-"Porque é preciso acordares. Lembra-te de quando sofrias? Tu não sofrias"



-"Simplesmente porque o sofrimento não existe"



-"Compreendo a dificuldade de vislumbrares o que te digo. Mas se estamos predestinados a sermos felizes, cedo ou tarde; pois então já somos felizes, e a felicidade é eterna, e o sofrimento nunca existiu."



-"Acordes, pois, não há outra predestinaçãco que a da felicidade, mesmo que seja triste acordares."



"-Tal sensação de estares em âmago tranqüilo"



-"A maldade é a maior das ingenuidades, é a pura ignorância, e não é correto repudiar os ignorantes, devemos nos prestar a algo que possamos fazer, pois assim já fomos também, embora que jamais seremos outra vez.



"Não posso fazer nada por ti. A dor é tua. Nem eu, nem ninguém pode fazer nada por ti. Ainda que o amemos. Tu deves vivê-la de forma intensa, aproveitá-la, sabiamente, ao máximo. Não adianta protelá-la, e quando compreenderes o porquê de teres sido tu, compreenderás que não houve dor alguma, pois, como qualquer criatura, sempre esteves predestinado à felicidade. E se serás feliz, então já és feliz. Portanto, acorda e dê bom dia ao irmão Sol"


Da matéria



-"Não há como iluminar todo o mundo, o mundo todo. Pois há de ter o escuro para que se faça a luz algum dia e se saia do verbo. Há a luz para se enxergar a matéria, mas a matéria se esgota, por isso haverá de ter algo maior, e outras utilidades para a luz, algo que não cesse na matéria, que o faças enxergar no escuro. Mas, sabe-se que ele voltará, da mesma forma que se sabe que estás predestinado à Luz, à felicidade, por isso, não há o que temer."


-"Vislumbres a perfeição. Agora peço que a encontre em qualquer canto ao teu redor. Tu não a acharás senão dentro de ti, em teus pensamentos, em teu coração. Como podes definir algo que não existe? Como podes imaginar algo que nunca existiu? Simplesmente tu não o podes. Tudo que se pensa existe, a matéria não é mais que um aspecto da realidade. Tudo que conhecemos possui matéria. Tudo que concebemos está já fora dela."

-"Teu avô foi um bêbado. Teu pai foi um bêbado. Nem por isso terás que ser um bêbado. Lembro que vossas bocas engoliam as bocas das garrafas. Já vós são, agora, engolidos pelas bocas delas. Os animais não têm vícios. Se o sofrimento vem depois do prazer, o prazer é um vício, se o vem antes, estás então, no rumo certo. Pois como já o disse, se sofres tendo a felicidade à tua frente, já és feliz. Percebes a tênue diferença entre o vício e o sublime?
Porém, importante ressaltar, que a felicidade não constitui uma meta, ela te constitui, nunca te esqueças. Se não assim for, terás que rever algo; muito provavelmente estarás, assim dessa tal forma, com alguma obsessão, terás que se desquitar dela, e não é fácil largar algo em que se houve dedicação, não é fácil amputar um membro podre, mesmo que seja para o bem-estar do resto todo. A matéria se apega fácil, apodrece, da mesma maneira, fácil também."



Do dor (causada e recebida); da cegueira, do medo e da ingenuidade



-"Destaquemos duas formas de sofrimento: a primeira é a que os justos sofrem. A segunda a que os injustos sofrem por causar. Simplifiquemos: Imagines um homem de olhos vendados com uma espada de aço afiadíssimo na mão, por medo (só se teme no outro o que conheces, e não conheces nada que não estejas em ti. Se tu temes algo ou alguém, aquilo que temes está inscrito dentro de ti) da vulnerabilidade que a cegueira o deixa, desfere golpes a esmo, na tentativa de defender-se. Quando é chegada a hora de sua venda ser retirada, ele olhará em volta e verá que terá matado e mutilado irmãos seus que queriam lhe retirar a venda dos olhos, além de outros vendados com espadas na mão. De certo que os golpeados pelo aço, para vós, sofreram, estão mortos ou mutilados, porém, seus seres imateriais estão intactos e podem sentir cada vez mais o âmago tranqüilo por superarem mais uma expiação. Aquele que golpeou seus irmãos por medo, cegueira e ingenuidade, para vós não sofreu, está com o corpo sadio, apenas causou o sofrimento. Mas, quando a venda de seus olhos cair, e perceber que já é demasiado tarde, sentirá a culpa falando dentro de sua cabeça, e espinhos dentro do peito. Verá sua forma desprendida da matéria mutilada, e a carne sadia de nada vale se a alma não está sadia. Todavia, a culpa é o primeiro passo para a resignação. O mal degladia a si mesmo, cegos contra cegos, temendo os que enxergam. Aquele que causa o sofrimento age por ingenuidade, medo e cegueira."

Juliano Motter e Sussuros, Bremen, 15 Março de 2008