terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dom dom


A luz do Sol está batendo na altura dos olhos , atrapalha para enxergar
Fechas os olhos e vês tudo vermelho
Escutas os gritos... O coro da torcida.
Fechas os olhos e vêm lembranças ao acaso
Queridas ou não, bem-vindas ou não
Dos nossos descasos.
Respiras fundo, coças a barba, o suor escorre pela costeleta mal feita
Coças as partes baixas, levantas as mãos ao alto e solta um bocejo numa eterna Espreguiçada.
Pensas que tem de fazer a barba, fazer as compras de casa, e ir olhar a dor na coluna
O vento começa a soprar e balançar teus cabelos e aliviar um pouco do Sol.
Aí, então, ele não te maltrata mais.
A luz se acende e ele aparece
A luz se apaga e ele vai embora
A luz volta e tu ainda permaneces.
Há de ter uma trégua
Precisas se agarrar a algo, por isso há tanta invenção, tanta dúvida, tantos escritos.
Tanta lógica ou falta dela.
Achas lógica e depois esqueces a peça que dava lógica ao que achavas

És como o Sol
Que iluminas
Em troca, apagas todas as outras estrelas
Mas penso sair ganhando nessa troca.
Queima!
Como queimas agora, e não como antes.
O Sol de agora é como o Sol da Folga, não castiga, não incomoda.
Quando ele se vai, não foi ele quem foi
Fui eu quem fui com o mundo .
Mudado. fico mudo.
À noite, estrelas cujo brilho não entretém mais
Entendiam-me, não entendem
Ou eu quem mudei... Não interessa!
Nada mais tanto me interessa! Nada mais tanto me apega
Penso que nada pode me pegar
Talvez elas nunca entenderam!
E eu apenas duvido...Talvez invejo a fé dos outros a lógica cega dos outros.
E eu só enganei, mais a mim do que tudo. Assim, penso, como tudo, como todos
Atrás da peça para fazer a engrenagem funcionar
Mas aí então ajo. Arrependo-me depois
Mas tudo de bom coração, mesmo em miseráveis palavras, os deuses perdoam
E haverá um tempo de redenção, onde não haverá arrependimentos, pois não haverá
Necessidade.
É o que dizem. Mas não vejo lógica. Sinto falta dela.

Se desapareces, desapareço também.
Por favor, apresse seu regresso!
Um milhão de Estrelas ponho, por ti, em:
Voga...
Roga!
Joga!
Não por jogar, mas porque é tua Folga!
Pois bem que não consigo mais jogar, e se jogares não é mais a folga...
Raios relâmpagos e trovões despencam de madrugada mesmo que não exista Nessa cidade.

Infinitas estrelas de um milhão de galáxias não competem com o Sol
Fracassos em infinitas palavras de miseráveis poetas.
Fracassados! Não hão de vê-los no passado em seu presente no meu futuro.
Falta-me algo, falta-me tanto e não sou capaz e sei disso e isso dói.
Porém sou aliado ao sentimento, ao intento, ao invento. Tanto tento e não me

Contento.

Lembro daquele boxeador de nossa vizinhança. Diziam que tinha talento.
Ganhou algumas lutas até ter a chance de sua vida.
Conseguiu lutar pelo cinturão de sua categoria [certo dia]
Lembro de como ele estava empolgado.[estava confiante]
Acho que todos estávamos.
Mas o gongo tocou, e ele se foi para cima do campeão
[Que haviam dito, não havia dado tanto interesse ao desafio].
E então, todos percebemos...
Nos primeiro instantes ele percebeu que jamais seria como o campeão
Pois aliado a ele ninguém esteve.
Conseguiu perder sem ser nocauteado [dando o seu máximo].
Saiu acabado do ringue, mais do que literalmente acabado. Sua lógica havia

Acabado.
Havia treinado tudo o que podia, dado tudo o que podia
Mas, mesmo assim, ele não podia.
Ficou acuado em seu córner e resistiu e persistiu e implorou aos deuses.
Torceu do primeiro ao último assalto para a luta acabar e ele volver à sua família.
E então todos percebemos que mesmo que tenhas razão, tu não podes.

Aquele que sabe um pouco a ponto de compreender um muito
E saber que jamais será como o muito, por mais que se esforce
Pois, aliado a ele, ninguém esteve n’outro lugar.
Então. daqui a tempo olharei tais palavras e repreenderei este que vos escreve.
Talvez, olharei para baixo, de cima
E então irei novamente aos deuses de chapéu na mão rogando perdão
Talvez olhando para cima, de baixo, talvez me sentindo como o boxeador
Mas apenas restará perdoar a mim mesmo
E eles me mandarão, então, jogar
Mas ainda não será o tempo da redenção
[Mal escrito, imaturo, sem talento]
Mas eu Tento! Mas eu quero... Mas tu não podes, “filho mio”...
E tais palavras ecoarão pela eternidade dentro de minha cabeça.
Como os murros fizeram ecoar na cabeça do boxeador.
Não consigo, mesmo assim prossigo, e vou indo, adiantando-me à falta de

Talento.
E quem sabe[talvez] eu até mereça. E quem sabe, algum dia, olharei para baixo,
Mas aqui não é o mundo dos merecedores
Nem dos amores amáveis.
Hipotético!?
Tudo que há me parece hipotético e patético.
Porém, jamais olvidarei do empenho e veracidade em tais palavras neste momento
E em momento algum!
Mesmo que seja hipotético e patético.
Se conseguisse colocar na ponta da pena metade do todo que penso que posso
Das milhares de idéias geniais que surgem a esmo, as quais se perdem a esmo

Também.

Rimas que fariam Camões ser ignorado
Poemas que nenhuma Pessoa sonhou
Que nenhum Homero jamais informou
Desculpas que nenhum deus ouviu ...
Falaria do Amor como jamais Paulo algum conseguiu
E então pela milésima vez, daquela vez, eles me perdoariam
E falariam para eu me jogar.
E eu, então, olharia para baixo, e com razão, de fato.
Pois bem que não me vejo escravo de coisa alguma de coisa nenhuma
Exceto de meus pensamentos geniais que se esvaem antes que eu possa exibi-los
E Tu, que desses, não sais. Força-me a olhar para cima.
Sinto-me feliz, não é isso o que importa?
Mas é hipotético.
E as idéias esquecem-me e recai com todo peso sobre os ombros e me vem, à porta,
Culpa.
E quando corro a pena novamente. Os pensamentos. Tu foges.
Nem roguei, nem joguei e o tempo não se importou e passou. E não há mais
Folga.
O fato desconhece o tempo e o tempo é alheio ao fato
Eles simplesmente ocorrem. E nunca se cruzam.

Desejo, então, apenas, conceber-me nas mil penas pensantes geniais,
As quais te agradam. Antes de tua fuga
Desejo me conceber na ponta da pena. Nas idéias que valem a pena
Não para mim, mas por mim
Para que todos saibam as inesgotáveis idéias geniais que tu me concedes
Ao certo que me jogo para não errar, mesmo sabendo, no fundo, que não há Chance.
Quantos e melhores e mais merecedores do que eu, também não quiseram
Também não sentiram o fato da vitória antes do gongo soar.
Mas o fato desconhece o tempo. E eles são alheios.
Todos sonham, mas Deus, apenas se alia a alguns
E só alguns estão aliados a Ele. Mesmo que não saibam.
E eles não se conhecem.
E eles não se concebem.
Mas esses, de vez em vez se cruzam. Então, por desejo divino, corre-se a pena.
Mesmo que eles não saibam.
E mesmo sem se dar conta, tu és merecedor. E a conta sempre vem, e bate à sua

Porta.
Mas, então, tu não te importas.
E se roga, joga-se e grita.
Por isso poucos concebem, para que muitos entendam.
Mesmo que ninguém queira, inclusive Deus. É assim que é!
Mas não cabe a ninguém escolher para o que servir.

Ao alvorecer do primeiro dia, vinha sobre águas diáfanas
Como sempre veio
Como um dia,

alguém quis que navegadores com saudades de casa viessem guiados pelas

Estrelas.

[No seu infinito oceano, tento contornar os mares, desbravar em ti meus males]
Mas, depois, apagaram-se as estrelas.
Tantas esquinas do mundo, tormentosas, há em ti
que nenhum Bartolomeu Dias bordejaria,
tantos selvagens que nenhum Cabral conteria,
tanta tragédia que nenhum Diogo Cão suportaria.
Infinitas milhas que nenhum Vasco da gama percorreria.
E eu bordejo e eu contenho e eu suporto e eu percorro.
E tento e agüento e prossigo
e quando não houver vento, invento, remo se preciso.
e quando não houver estrelas, terei o Sol para me guiar
e quando não houver Sol, eu correrei a pena antes que o tempo corra e o fato ocorra.
Mas o fato ocorre e o tempo é cúmplice e necessário e sádico.
Quando o que digo, de nada mais valer e o mar volver a separar,
Quando o que tive e o que fiz e o que farei ninguém mais souber,
Valerá de algo?

Sorrateiro como aqui se faz, do nada ascende e acende
Do velho mundo para mudar meu mundo
Do velho mundo para o infinito mundo
Da agonia para a fantasia, da fantasia para a agonia
Todo dia. Noite dia, noite dia, noite dia, noite dia, noite dia...
Queima meu rosto, não consigo mais abrir os olhos
Queima-me por dentro
Arde-te minhas vísceras
Pois maior do que isso. Não há maior tormento.
Consigo me sentir bem, invencível, disposto com o Sol no rosto,
Puro!
E Inseguro com todo o escuro que o Sol e os deuses deixaram para nos guiar.

Depois daquela luta pelo título, o boxeador se mudou lá da vizinhança
Disseram que casou com uma tal de Carolina
Certo dia o encontrei na rua, ele me disse que já havia se divorciado
Disse que havia retomado os treinamentos
Mas que dessa vez sabia que jamais seria como quisera,
Como acreditava, antes, que um dia poderia ser.

[Platão vive no mundo o qual ele criou?

Um século depois, Alexandre tomou a península,

Para a qual Platão criou soluções, hipotéticas e práticas
As quais se aplicam ainda hoje, no então, ainda não descoberto, e no agora, novo mundo
E em todo mundo ou qualquer outro que haja.

Quatro séculos depois surgiria um judeu, na região da Galiléia, Yeshua, o nosso Jesus.
Paulo espalharia as idéias de Yeshua pelo mundo, que ainda pertencia a Roma.
Roma caiu!
Agostinho, ainda não Santo, apropriaria-se de Platão para criar o céu e o inferno.

Um milênio depois, o novo mundo seria (Re-)descoberto.
Cinco séculos depois,na mais pura lógica, o boxeador criaria um (novo) novo mundo

para sua Carolina. Sem ringue, sem hipotético.
O qual nem Platão imaginou, o qual nem o mais puro cristão poderia entrar.
E toda vez que ele a via, Platão em seu mundo chorava.
Pois, mesmo tendo “fundamentalizado” a perfeição de Cristo
Ele não poderia imaginar a “fundamentalização” do menino para a imperfeição de Carolina.
Não foi Aristóteles quem superou Platão, e sim o garoto com sua Carol
Junto com toda a fé que tinha na lógica que ela gerava para si.
Mas, a perfeita harmonia das imperfeições de Carolina se esvaíram para o rapaz
E o mundo que ele criara para sua menina caiu, não pelos bárbaros, não por Alexandre.
Mas pela hipotética lógica das coisas, alguma peça da engrenagem se quebrou.

Como naquele dia em cima do ringue desafiando o campeão.
Então, ele compreendeu o patético, novamente, pela primeira e última vez.
[Ainda que saibamos que não]
E Platão, de seu mundo, voltou a sorrir. E a engrenagem voltou a rodar]




Maceió, 15 de Janeiro de 2008

À Tabacaria, e seus 80 anos(completados hoje)

Juliano Motter