quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Agenor

Só poderia...
Uma alma sofrida
Dar numa caligrafia sofrida.
Rápida e doentia, ligeira,
Impensada.

Aqui com esta caneta,
Ao pé de um portão de embarque
Sem poder embarcar.
Com dó de mim mesmo.
Com pena do mundo e do Universo.
Febril em palavras desconcatenadas,
Sangradas de minha alma sofrida.
Nesta caligrafia que não podia ser, a não ser
Sofrida.

Às mazelas das estrelas das noites de meu ser,
Das avenidas fantasmas de minha existência.
Do mar frente ao meu ser,
(Como este portão de embarque a dar sua última chamada)
À maresia acariciando meu rosto,
Minha alma, minhas memórias...
Que saudade...Pobre me sinto...
(E com toda razão)

Sou qualquer coisa de saudade,
De passado, de sofrido...
Qualquer coisa de Adeus,
Do embrulho no estômago lado a quem se ama.
Defronte ao portão de embarque,
Sim!
A vida inteira tenho de ser o que está ao pé de um portão de embarque.
Arre! Ao menos uma vez me poupem de partir!
Levem-me daqui!
Tenham piedade!
Quero partir a outro lugar que não seja comigo!
Ou ir com quem se vai.
Mas não quero (ser) isto.
Sempre, sempre, sempre...
Esta angústia sem fim
De saber que o que é agradável corre por mim
Para um portão de embarque
E me acena do infinito para canto nenhum
Desconsoladamente...
O Adeus! Escreva-me!(Escrevo)

Sou e nada mais me resta ser, senão os minutos infinitos
Defronte ao portão de embarque. O nó da garganta. O Adeus...

Adeus!(Escrevo)

À minha casa distante de meu ser,
Dentro de mim...
Cruelmente dentro de mim.
Quero minha casa de volta,
Não este desconforto da alma,
Este nunca estar-se satisfeito com coisa nenhuma.
Quero-me sem discernimento...Vivo...
Não este nunca sentir-se íntimo de canto nenhum.
Quero-me em minha casa,
Não este forasteiro do Universo que veio a dar por mim
Que não guarda intimidade com nada que não seja sofrido.
Nesta caligrafia sofrida
Que não guarda intimidade com nada que seja calmo.
Quero-me de volta!
Não este desconsolado defronte um portão de embarque
Que dá pena.

JMottër, São Paulo, 1° de Janeiro de 2009, Quinta-Feira

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Abele

Nada é para sempre e hoje é infinito.
Soou o sino da catedral para a missa eterna,
Acendeu-se o candeeiro das almas que animam o espaço
E eclodiu a vida no universo numa concatenação perfeita rumo ao infinito
Dando em mim que dá nestas palavras concatenadas em frases sem ponto final.

A dor grande,
Que é grande por ser dor.
Finda enquanto o nada se há,
O tal nada que é tudo,
Tudo por ser dor.
Dor tão real quanto a vida,
Real por ser vivida a própria vida,
Ainda que nada seja o que é.
A tal vida que é dor, a tal dor que é vida.
E infinita num rumar para canto nenhum.
Imaginada, vagarosamente imaginada,
Ainda que real.
Que é como se tudo fosse o mesmo
E o mesmo fosse nada.
O tal nada que é presente. E demora na imaginação...

Carrega-me daqui, Ó, presente infinito.
Findo absurdo, de um ser absurdo.
Porque amanhã há de vir
Ainda que hoje seja infinito.
Hei de sair donde me sinto,
Pessoa a esmo do passado.
Junto de tanta coisa do passado,
Que vai perdendo o significado,
E se desfigurando na medida em que se desgarra da memória,
E é como se o tudo fosse nada.
Por que da dor?

Coisa parecida com gente, a anos, virão
E não se importarão comigo,
Com a casa de meus avós vagando em minhas lembranças.
Meus avós...
Apenas lembrança. Qualquer coisa do passado
Junto de tantas outras coisas que tudo eram
Outrora o tal presente infinito no alpendre da casa desgarrada do Universo,
Ao pé da cadeira de balanço
Escutando meu avô falar como se fosse Deus para mim.
O indefinido não existia e eu era eu e me bastava.
O Universo tinha sentido.
Acordar era porque já não se tinha mais sono.
O tudo como o presente infinito absoluto de agora que não passa,
E vagarosamente tarda.
Infinito, e é o mesmo
Ainda que hoje é ontem, amanhã e sempre.
Basta por hoje.
Carrega-me daqui, absurdo, para amanhã.
Pois hoje não me sinto bem,
E hoje é infinito.
Apenas lembrança desgarrada de tudo que é gente da Terra,
Do indefinido. Do adeus.

Adeus!

Numa partida infinita rumo ao nada.
Tal nada que é dor
E grande por ser dor.
Como lembranças são homens de anos antes
Aglomerados em coisa chamada memória
Inquietas em pensamentos angustiados.
Apenas um monte sem definição na memória de tanta gente.
Cada vez menos gente.
Amontoado sem rosto.
Amanhã apenas um monte de uma época longínqua,
Que não quer dizer mais nada
E era tudo.
Mesmo diferentes,
De outras épocas.
São apenas qualquer coisa do passado.
Sou qualquer coisa de passado mas sou quem vivo para sempre
Porque hoje é infinito e o adeus é para sempre.

Adeus!

JMottër, São Paulo, 22 de Dezembro de 2008, Segunda-Feira

sábado, 25 de outubro de 2008

Angústia

A caminho da escola, sempre atrasado
A caminho da escola, para sempre
Só porque é a escola que preciso ir agora
Para a aula porque preciso dela, penso precisar,
Alguém disse que eu precisava,
Quantas coisas me disseram e eu tomei como verdadeiras?
Como se precisasse mais do que tudo
Quantos desejos me sussurraram e eu os tomei como meus?
Não sei o que quero, só o que me disseram, o que tomei para mim,
Os desejos alheios sem saber precisar a razão,
Com uma fé cega, como se fosse sempre o que quisera,
Mas não sei o que quero, não sei de mim,
Ainda embora transpusesse qualquer coisa que obste meu caminho à escola
Então é ir à escola o que quero, suporia,
Mas o desejo do homem em seu padrão de medida,
Não se diz desejo por coisas cotidianas, tidas como pequenas
Ainda que tudo seja um milagre, as coisas pequenas inclusive
Como um milagre pode ser pequeno? Como se pode medir a grandeza de um milagre?
Nunca vi um milagre, ou os vejo todos os dias?
Galgando-me em desejos pífios, de sonhos pífios como eu, vou à escola
Para sempre, porque só o sempre existe
Acelero o carro no amarelo,
Mas o sinal fecha, e não consigo atravessá-lo
Quantas coisas quis atravessar e não pude...


Olho para o lado e vejo uma senhora a fumar,
Como se tivesse uma altivez planejada para se sobrepor a pessoas como eu,
Mas se é altiva não tem de ser planejada, talvez ela seja como eu, pequena
Vejo-a bem, melhor do que ela um dia pôde se ver, pois é como se me visse
-Acaricia o filtro do cigarro com os dedos, logo o põe na boca
Lá o acaricia rapidamente com a ponta da língua, como se fosse tudo planejado-
Pode-se bem se ver a angústia por detrás da máscara altiva que veste
Então, de certa forma, é minha angústia também,
Posso vivê-la como que se fosse minha,
E de fato realmente a é
Vê-se de longe
Vejo-me também, no espelho do carro, na senhora que me serve de espelho
Penso não ter nada a me afligir, exceto o atraso, a angústia da senhora que abracei como se fosse minha
Não há minuto sequer vivido por mim sem aflição
Então o sinal abre, dobro a direita, a senhora vai reto, para sempre
Toda sua vida foi minha, e toda minha vida foi dela, mas o sinal abriu e seguimos adiante,
distantes um do outro, provavelmente jamais a verei de novo, e se a vir não a reconhecerei...
Sinceramente, não me importo
O único som que me interessa é o de meu coração

Ligo o som do carro, pondo na rádio
Está a tocar uma música que conheço bem, costumava gostar dela,
Apesar de estar um pouco enjoado,
Mas na rádio o fator surpresa faz com que eu a tolere,
E até volte a gostar dela,
Penso que talvez eu nunca tenha deixado de gostar dela,
O que é enjoar-se então senão deixar de gostar?

Paro para tomar um café, sempre o café,
Consola-me mais que a vida uma xícara de café
Na cafeteria, então, servem o café à minha pessoa, estendo a mão agradecendo,
Como se estivesse faminto, e uma alma altruísta me servisse um prato de comida
Ponho-o na boca, sinto bem seu cheiro
-como me sinto bem, adiantando a aula que já estou atrasado, protelando o momento que não quero-,
Percebo então que o futuro ainda não é, e quando for já não é mais,
Minha existência se resume a esta xícara de café defronte,
E eu a consumo

Saio da cafeteria, entro no carro,cada vez mais atrasado para a aula...
É de Teologia,
Qual ciência poderia falar da intersecção entre o que meus olhos vêem e o que meu coração pode sentir?
Se isso ela pudesse, garanto que não estaria atrasado, nem protelando minha chegada à aula, nem consumiria minha existência, tampouco a mim

No carro já, acelero, mas não consigo mais acelerar,
Pois há tantos carros atrasados na rua quanto eu,
Tantas intersecções angustiadas quanto a vida
Chego finalmente ao cruzamento da avenida principal,
Paro em mais um sinal vermelho,
Têm crianças lá que vêm em minha direção, param defronte à janela
E me vêem do lado de fora do carro...
Devem pensar:
“-Este sim é que leva uma vida boa.”
Então elas pedem esmolas,
Digo que não as tenho (e realmente não as tenho), mas sou gentil,
Por que eles e não eu estão a pedir esmolas?
Sinto culpa, por isso sou gentil,
É como que se me desculpasse

Se eu fosse pedinte não moraria nesta cidade,
Viveria na praia...Mas por que não estou agora na praia?
Penso que tenho que ir à aula ao invés de estar na praia;
Mas bem sei que se estivesse na praia, pensaria que teria de ir à aula ao invés de estar na praia,
Estaria angustiado, insatisfeito por não estar onde julgaria que deveria estar,
Mas estando onde deveria estar, veria que não é ali que deveria estar...
Estaria angustiado mais uma vez
Talvez donde vim era o lugar certo, mas regressando lá
Não reconheceria o lugar que havia deixado,
E me sentiria perdido, um estrangeiro a cada cidade, sem casa,
Um pedinte querendo ir à praia

Seguindo à escola passo por algumas bancas de flores,
Se eu tivesse uma namorada sempre pararia nestas bancas para lhe comprar flores
Sei que é mentira o que digo, quantas namoradas e oportunidades tive pra lhes levar flores,
Mas sempre estive um tanto atrasado para poder parar na banca de flores,
Sempre preferi o café às flores que fariam minha namorada feliz por um instante
Mas o que é viver senão perseguir as felicidades de um instante, para que então possamos finalmente nos sentir completados?

Chego à garagem onde estaciono,
Cumprimento o porteiro levantando a mão, como sempre faço, só porque faço agora,
Como que se pedisse desculpas por ele ter de abrir o portão para mim todos os dias
Então ele pensa:
“-Este sim é que deve se sentir completo.”
Saio da garagem e passo apressado pela esquina que sempre há mendigos bêbados,
Um deles me conhece, seu Osório, sempre me pede dinheiro para beber...
Hoje ele não está bêbado e mal apanhado,
Está com a barba feita, sóbrio, sentado em uma mala, olhando-me com um olhar constrangido
Cumprimento o seu Osório,
Como se pedisse desculpas por ele ser mendigo e bêbado,
Diz-me ele que não irá mais beber
Os outros mendigos zombam dele, estão bêbados
Sei que seu Osório não quer mais beber, torço para que ele consiga, como uma espécie de inveja ao contrário, torço
Mas sei bem que amanhã, ou depois, vê-lo-ei como de costume, a me pedir dinheiro para beber, mal apanhado, e com a barba mal feita, caído naquela mesma esquina, sobre a mala aberta
Olhando-me entregue, e não mais constrangido
E eu então darei o dinheiro para que ele possa me desculpar

Chego finalmente à sala, não estava tão atrasado, mas me sentia como que se estivesse,
Pois é assim que me sinto toda a vida
Sempre a me sentir como que precisasse chegar antes do que posso a um lugar que não existe
A compromissos fundados comigo mesmo
Sempre este sentimento de se estar atrasado, de se estar errado diante dos outros,
De pedir desculpas por se estar vivo, a cabeça baixa com o olhar de esguelha por debaixo de minhas vergonhas, de meu complexo
Sempre esta angústia incrustada em meu espírito,
Esta insatisfação injustificada cravada em minh’alma
Este furacão caótico de sentimentos em meu ser,
Que tanto me lança às nuvens quanto me arremessa com violência ao chão,
Não sei discernir o que sinto, mas sei que sinto algo, e não me sinto bem
Sempre a desejar a praia, e quando estiver dentro do mar desejar a aula, e novamente desejar a praia, porque era na praia que era feliz
O “por favor”, “obrigado” e “desculpe-me” que me asfixiam
A namorada certa por vir, porque com a passada não poderia ter sido feliz,
E quando me vejo com outra, foi com aquela que fui feliz
Por que nunca levei flores para ela?
Sempre a me doar mais do que posso, e achar que nunca é o bastante
A doar-me exaustivamente em versos como estes, escritos na aula maçante de Teologia,
A sangrar no papel minhas dores
E me martirizar por não atender minhas próprias expectativas,
Ou será a expectativa que os outros têm para mim, e as tomei como minhas, até crendo nelas?
Sempre a pensar que tudo que posso, tudo que tenho não é suficiente,
A certeza de que há o melhor de mim, e esse melhor, mesmo meu, não me pertence
Galgado em sonhos de gente medíocre, minha vida se dá nos versos que escrevo,
Acanhado no canto da sala, durante a aula
Sou tão viciado quanto seu Osório,
Ora sóbrio sente uma atração incontrolada pela bebida,
Ora bêbado, sente-se arrependido por ter bebido, então vomita o que lhe enjoa,
E o que é enjoar senão deixar de gostar?
Mas se deixou de gostar por que voltar a beber?
Por que nunca tentei ajudar o seu Osório?
Sempre a felicidade protelada para o dia seguinte, que ficou ontem
Sempre faltando um dia para ser feliz, um dia a mais de ter sido feliz
Por pouco de não ter sido feliz, mais um objetivo e me completo
Mas o futuro não vem, pois ele não existe
Ninguém vive o futuro, só o que nos cerca
Tudo que me resta está ao meu derredor, galgado em sonhos pífios como eu,
Sonhos como a vida, como ser pensante, como Pessoa,
Pífios como eu, como ser que não pensa, porque só sente; como pessoa
Na altivez forjada da senhora do carro ao lado, no cigarro dela, na minha xícara de café...
Pessoas como eu nunca estão felizes, sei como sou e aceito minha própria condição,
Como um doente terminal se resigna à morte, e quando ela chegar perguntarei:
Por onde esteve que tanto demorou a me achar?
O passado não existe, só a lembrança

Esta agonia presa em minh’alma
Este não sei o quê desesperador em meu ser
Esta aflição incessante de meu espírito
APIEDE-SE!!!
Por favor ou por pena...
PARE!


E amanhã acordarei do pesadelo que é hoje, e então amanhã volverpa a ser hoje
E hoje, já ontem, mais um dia se foi, mais um dia virá, mais um dia é...
Sei bem o que farei, pararei em sinais vermelhos, viverei a angústia alheia do carro de lado, estarei atrasado para uma aula que já não é mais de Teologia, irei tomar uma xícara de café, pois ela me consola mais que a vida, e o garçom, ao me servir, falará:
-Aqui está seu café, senhor!
Eu olharei para ele e direi sério, procurando ser afável com o moço, e responderei como que se me desculpasse:
-Não carece de me chamar de senhor, amigo.

JMottër, São Paulo, 25 de Outubro de 2008, Sábado

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

América

Sinceramente, a única coisa sincera que possuo agora, é a sinceridade de dizer o que vos digo. Sinceridade de admitir que não tenho nada a dizer, mas digo assim mesmo, de dizer coisas que todos sabem bem, e mentir sobre o que não há como mentir, pois todos sabem bem da verdade. Admitir que sou deficiente em demonstrar o que sinto, incapaz de escrever sobre meus sentimentos, então tomo o dos outros como meus, e os vivo como verdade. O que de mim poderia dizer que interessasse? Como uma criança a querer a atenção da mãe.

Sei que há algo dentro de mim, assim como dentro de todos, mas não saberia demonstrar neste texto, não sei exteriorizar aos olhos dos outros. Mas por que esta preocupação sobre o que os olhos dos outros vão enxergar? A mim, ou a pessoa nestas palavras? Sei que há algo dentro de mim, mas não sei precisar o quê, como a América para os navegadores, que intuíam haver algo além-mar que mudaria o mundo, mas não sabiam precisar o quê, tiveram de se lançar ao mar para descobrir. Dentro de mim há alguém que venho tentando conhecer, para mudar meu mundo, tenho que escutar o murmuro de minha intuição e me lançar ao mar caótico de sentimentos dentro de mim para conhecê-lo.

E agora, neste texto, talvez só neste texto, estou pouco me importando em fazer algo bom, em deixá-lo bom, coerente e compreensível; pois, se assim fosse, seria falso como o sujeito que os outros enxergam. Porque das coisas que há dentro de mim, de boas, coerentes e compreensíveis não têm nada. Há muito esqueço de ser o que sou, só o que vêem, ao ponto de chegar a acreditar no que viam, e quando me vi para dentro, fiquei estarrecido com o que enxerguei...Que sujeito medíocre tenho sido.

JMottër, Maceió, 17 de Outubro, Sexta-Feira

domingo, 12 de outubro de 2008

O evangelho segundo São Paulo

São Paulo é deveras importante como cidade,
Mas não é tão importante quanto minha cidade,
Ainda que quase ninguém se importe com minha cidade.
Em São Paulo há os melhores bares, cafés e restaurantes;
Bem, na minha cidade há bastantes coisas boas também...
Há a padaria do seu Pepe na esquina, o coco do seu Geraldo na quadra de areia da praia, o café mal feito da melhor cafeteria de todas as galáxias...
Em São Paulo vê-se estrelas desfilando pelas ruas,
Já na minha cidade elas desfilam pelo céu.
Lá, quando não se tem nada para fazer, só se vive,
E se vivendo por lá, já se sente completo, pois se viver por lá já é bastante,
Resume-se a si mesmo, justifica-se por tudo, para tudo e para todos.
Em São Paulo sempre se tem algo por fazer,
Para que se possa sentir-se completo.
Sempre há algo para se justificar, pessoas se justificando todo o tempo,
Por tudo, para tudo e para todos.
Minha, querida, cidade jamais se esquecerá de mim, quero acreditar nisso,
Muito menos eu dela, quero acreditar nisso.
Minha querida cidade é-me só uma lembrança,
e como me é pesada tal lembrança por ser tão feliz.
São Paulo, para mim, era apenas o Santo que falava de amor,
Que equívoco, parece-me então, terem batizado esta cidade com o nome desse Santo.

Daqui de São Paulo se sai,
Por estradas que nos levam a outras cidades também batizadas com nomes de santos,
Sem se mudar de paisagem, sem que percebamos que se tenha mudado de cidade, de Santo.
Lá na minha cidade ao se sair por estradas, não se chega a canto algum,
As estradas que percorremos são as de dentro de nós,
São as de nossa alma, secas e desertas,
E nas estradas de lá a paisagem também não muda muito.
E embora não se chegue a Santo algum,
Deparamo-nos com alguns santos de romarias que bloqueiam as estradas,
Lá, mudar de Santo não é coisa que se cogite.

Há milhões de pessoas em São Paulo, mas é raro se ver pessoas de São Paulo;
Milhões de pessoas, aqui, como eu,
Que deixaram suas cidades que ninguém nunca ouviu falar.
Há poucas pessoas na minha cidade, mas é raro se ver quem não seja de lá,
Quem não deseja do fundo d’alma se perpetuar por lá, porque por lá só se vive.
Quem vive em São Paulo quer partir de São Paulo;
No entanto, não pára de chegar gente por aqui,
Não menos obstante, ninguém sai mais de São Paulo.
Como tantos filhos de cidades amadas desconhecidas,
Sinto-me como o desertor da pátria por ter abandonado minha querida cidade,
Ter mudado de Santo.
Temo jamais sair daqui, e nunca mais voltar à minha cidade,
E se voltar, que cidade encontrarei? Aquele que deixei?
Temo ser mais um a contribuir com isto. Não quero viver a me justificar,
Para mim viver já basta, pois viver já se justifica.

Lá na minha cidade,
A vida é tão vivida, tão só viver, que até se esquece que se está vivo,
E se acaba esquecendo de viver, e quando se dá por conta,
O tempo alheio à nossa distração já se passou.
Em São Paulo, a vida está sempre adiada para depois do compromisso,
Que se acaba se esquecendo de viver, e quando se dá por conta,
O tempo alheio à nossa distração já se passou,
Isso elas têm em comum...

Ocorreu-me que, agora então, já se começa a ficar coerente que,
esta cidade(refúgio de almas desertoras saudosas)tenha sido batizada com o nome do Santo, foi ele mesmo quem disse:
“(...)Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.”...

JMottër, São Paulo, Domingo, 12 de Outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Aí estão suas flores

Amo porque amo, pelo bel prazer de amar
Amanhã cedo, acorda-la-ei com flores
E em nosso amor olvidaremos nossas dores
Daí então iremos de mãos dadas a ver o mar

Creio nela, pois não há nada mais que nela crer
Que feliz me sinto por ter tamanha sorte
De tudo que sei, todas verdades de meu ser
Acredito não ter fim meu amor mesmo em morte

Pensar nela é esta agonia a todo instante
Amo porque amo, simplesmente por muito amar
Amo porque a amo, pois isto já é-(me) bastante

Com ela me sinto em casa, pois ela é meu lar
Vil ledo engano amar, por motivo algum, assim
Amá-la é por amar, é crer meu ser não ter fim

JMottër, São Paulo, 10 de Outubro de 2008, Sexta-Feira

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

D'alma

____Subo pela ladeira das campinas escutando o ronco dos motores.
____Subo pela ladeira das campinas dentro de mim.
____A viver em meu mundo e esquecer do outro.
____Vivo dentro de mim por mim mesmo, para mim mesmo, além disso não há o quê possa existir.
____ Os carros vêm e passam acelerando cada vez mais para chegarem ao seu destino, -tão alheios a mim quanto eu a eles-.
____Já não escuto mais o ronco de seus motores, só o meu coração.
____Não me sinto diferente, ora penso que meu espírito leva meu corpo para aonde ele quer ir, para chegar ao (s)meu destino. Ora penso que meu corpo carrega meu espírito...
____Ao topo das Campinas, pensamos, então andamos lado-a-lado, partes de um só, como partes do todo, tão íntimos, tão seguros um do outro, resta nada a um senão o outro, e para o outro senão o um. E para os dois senão subir pela ladeira das campinas. Lado a lado, partes de um, partes do todo, mesmo alheios ao todo.
____A dor na carne se resume a um ponto. A dor no espírito a mim todo. Não tem começo, não tem fim.
____Sem pretensão, então, enquanto subo pela ladeira das campinas, ponho uma mão no bolso a balançar as moedas que há lá, ponho a outra mão no outro bolso à procura do chiclete, de anteontem, na calça que ainda não foi posta para lavar...(Lembro-me de ter sobrado um no pacote, e que o havia ali deixado).
____Cada vez mais próximo do fim da ladeira das campinas, passo por um ser a me pedir esmolas, saco-as automaticamente do bolso, quase que sem perceber, onde me serviam de brinquedo apenas e as lhe dou. Invejo-o de certa forma, pois ele sabe bem o que quer, para ele tudo consiste no óbvio de conseguir moedas; já eu nem sei por que subo pela ladeira das campinas, que é tudo o que me resta, tudo que me faz existir.
____Finalmente acho o chiclete! Estava certo de que estaria nesta calça, que ainda não foi à lavanderia! É de menta, meu predileto! Ponho-o na boca...Como é gostoso mascá-lo com esta verdade...Sinto-me feliz por mascá-lo. Mas a certo momento o gosto dele cessa. O que me deixava feliz cessou naquele chiclete. Não há felicidade que não cesse. O que me deixava feliz foi consumido por mim mesmo até cessar. Esvaiu-se por dentro de mim para canto algum.
____Depois, então, lembro-me que com aquelas moedas, que me serviam de brinquedo um pouco antes de servirem de esmola, serviriam-me para um café. Ao concatenar as idéias sinto um tanto de raiva daquele pedinte, mesmo que saiba que ele não tenha tido culpa, tampouco eu a tive, penso eu, mas mesmo assim me culpo. O café também me traria felicidade, mas se esvaiu antes de se constituir em felicidade para mim, antes que eu pudesse consumir o que seria minha e só minha felicidade.
____Então desço pela ladeira das campinas, para o local de onde vim, com as mão nos bolsos que já mais nada têm; com aquela habitual angústia que meu rosto mostra bem, que não sei precisar por quê, que não sei de onde vem ou para aonde vai, se é parte de meu corpo e nele cessará, se é parte de meu espírito ou se é o resultado de mim como todo, tudo, tal como a ladeira que agora desço.
____O que me restaria da vida senão andar distraidamente sem saber o porquê, de brincar com moedas e dá-las a quem não precisa mais do que eu, e procurar chicletes e finalmente achá-los, e depois vê-los perder a graça dentro de mim mesmo, e a pensar culpando outrem, culpando-me, que por um acidente, descuido, distração, não pude ser mais feliz do que fui?

JMottër, São Paulo, Sexta-Feira, 19 de Setembro de 2008

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sonhos

Do tempo

É no mínimo estranho pensar num tempo finito, ainda que tudo o que conheçamos seja finito. Suponhamos que daqui de trilhões de anos, todo o universo desapareça, o tempo desaparecerá com ele? Depende, no vácuo absoluto, onde nada existe, não existiria o tempo. Pois o tempo necessita de um mínimo de matéria para agir, pois, juntamente do espaço, ele constitui a própria matéria. Todavia, não há sinais de vácuo absoluto no universo. Admitamos, então, que ele seja infinito. Ora, se algo é infinito, tal como o tempo, não há o quê possa se comparar a ele, pois trilhões de anos se comparados ao infinito, serão tão pífios quanto milésimos de segundo se também forem comparados ao infinito. Portanto, milésimos de segundo, anos, décadas, trilhões de anos, perante o tempo -que é infinito- se equivalem. Isso me leva a crer que toda a história do universo, com todas as suas galáxias e formas de vida, existe num contínuo presente infinito, e está inscrita dentro de qualquer partícula de matéria do universo. Tudo é presente e infinito, o tempo constitui parte de toda matéria, e ele é presente e infinito. Mas, se em toda matéria há tempo em sua composição - o qual é constante, presente e infinito- e as matérias envelhecem, envelhece também o tempo? Não. Assim como tudo o que existe não envelhece. Tudo e todos são constantes no infinito presente do tempo. Toda a história de tudo e de todos, nascimentos, mortes, invenções geniais...Ocorre agora, ontem e para sempre.

Do que sinto

Consigo lembrar de coisas como se estivessem de novo ao meu redor. Um dia elas estiveram, mas se tornaram lembranças e não estão mais ao meu redor. Ainda que possa senti-las uma vez mais. Pego-me muitas vezes indagando se realmente estiveram ao meu redor. O homem faz estradas ligando cidades, para que outros homens cheguem e saiam das cidades, faz carros, aviões...Mas nada disso me parece real, por mais que consiga apalpá-los. Sinto falta de tanta coisa, mas de nada que um dia pude apalpar, de que pude ver, cheirar; pois penso que nada daquilo que possa lembrar tenha existido. Lembro-me sem barba, lembrar-me-ei de quando não tinha rugas, lembrar-me-ei de quando escrevia o que escrevo. Lembro-me de muitas coisas, mas não consigo lembrar como eram de fato, se é que de fato eram. Há deveras metafísica em se olvidar das coisas como de fato eram. É como se tudo sempre estivesse em minhas lembranças, como um ator a esperar para entrar em cena com seu texto previamente decorado não gerando surpresa alguma em mim, espectador. Talvez sempre tenha vivido eu mesmo ao meu lado, porque o que vejo é pífio comparado ao que acredito existir, inclusive eu comparado a mim mesmo. Meus olhos, meus sentidos não captam o que posso sentir, ainda que eu sinta e veja com uma fé cega as coisas que existam de além; e pressinta como deva ser de fato senti-las. E das coisas que sinto, vejo, apalpo...Duvido muito delas. Demoro a percebê-las, como alguém que escuta um idioma estrangeiro e leva tempo para traduzi-lo internamente para si e gerar uma resposta razoável para um pergunta fútil qualquer.

Breve elucidação lógica da existência da alma(inteligência e sentimentos incorpóreos)

Se amo, o que é em mim que ama? Meu cérebro!? Então não estaria menos correto em dizer que meu pé ou pulmão ama algo. Quando eu amo algo, o que em mim é que ama? O meu conjunto (pernas, cérebro, coração, genes...)? Não estaria outra vez menos certo, portanto, em dizer que meu pé ou coração ou tripas ama algo. Acho que o amo(meu conjunto corpóreo -pernas, cérebro, coração, genes...-) mais do que ele a mim. E remetendo de forma ratificada o que disse: se eu o amo(conjunto), e em mim o que ama é ele, sou eu que amo a ele julgando, incorretamente, amar a mim... Não! Está, dessa forma, coerente que a matéria é incapaz de amar. De certo que não me resuma a meu cérebro. Nem a minhas pernas, cabelos, braços, palavras, idéias... Meu início e meu término não se resumem a isso.

Do que sinto(continuando)

E de tudo o que me falta, é aquilo que sempre me faltou. Tudo se apresentava tão certo. Tão exato. Pois que quando a metafísica a mim se mostrou, o resto me esqueceu. Faltam-me os dias em que o óbvio realmente era óbvio. Escovar os dentes constituía-se apenas em deixá-los limpos, e não em indagações mais complexas além do óbvio de escová-los apressado e ir dormir. A parede se constituía em tijolos e alvenaria, e não em obstáculo à minha existência. Caminhar pela praia era pelo prazer da carícia das marolas em meus pés, e não esperando que naus vindas do além mar, com respostas em que neste mundo não há, salvassem-me do abismo que mergulhei.

Da genialidade

O que faz de um homem gênio? Nascer assim, ainda que levem uma vida ou mais para reconhecerem-lhe sua genialidade? Não se faz gênios do dia para noite, ainda que eles tenham nascidos gênios. E gênios, têm certezas maiores sobre o óbvio? Caminham, simplesmente, pela praia? Atravessam paredes? Acreditam mais em seus cérebros do que nas outras coisas? Conseguem perceber como as coisas são de fato e a posteriori lembrarem-se delas? Postam a cabeça no travesseiro, depois de escovarem os dentes, com mais verdade que os ordinários? Ou com o mesmo peso?

Do sonho

Não sei o porquê da distinção que há entre o sonho e a vida. Pois para que se possa sonhar tem que se estar vivo. O sonho não é diferente da vida, é parte dela. Porque é bem verdade que mortos não sonham. Ainda que sejam personagem dos sonhos dos vivos. Ora, se viver implica em sonhar, e não há realidade maior que a vida, a vida é um sonho, e o abismo infinito que mergulhei é o mundo.

JMottër, São Paulo, 23 de Agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Norte

Eduardo olhava pela janela de seu quarto, por entre a poluição, para dois homens no prédio defronte, pendurados em andaimes, limpando janelas. Pensou, mas sem menosprezo algum, que poderia ser muito bem ele no lugar daqueles homens, limpando janelas em um dia de Domingo. Então, olhou para si e agradeceu a Deus por ter a vida que tinha. Estava fazendo os últimos ajustes em sua monografia. Estava fazendo os últimos ajustes nas atas para a reunião da próxima manhã. Estava fazendo os últimos ajustes, por telefone, com Paula, no encontro que teriam mais tarde. Sentia aquela habitual angústia dos fins de tarde dos domingos. Mas, estava feliz porque finalmente iria sair com a menina de que gostava. Finalmente iria ficar de férias, na quarta-feira, após a apresentação de sua monografia. Finalmente iria ser efetivado, após formado, na empresa a qual trabalhava. E, então, finalmente iria morar só – já havia inclusive achado um apartamento justo para si-.

Olhou sua agenda com regozijo pois havia pouca coisa para se fazer naquela semana:

Segunda haveria a reunião da empresa, última do ano. As oito horas.

Terça teria o dia livre. Guardou-o para os últimos preparativos em sua monografia.

Quarta, pela manhã, apresentaria a monografia. Guardou a tarde para sair com a família para almoçarem juntos.

Quinta a noite iria jogar bola com os amigos. Teria a tarde livre. Pensava, portanto, em sair com Paula novamente, caso as coisas corressem bem com a moça. Estava apaixonado.

Sexta, véspera de natal. Iria buscar alguns parentes que não via há alguns anos no aeroporto. Os quais iriam passar o natal em sua casa. Ansiava pela data pois sabia que iria ter momentos agradáveis naquele dia.

Já a semana subseqüente teria livre. Viajaria com os amigos para o litoral, onde iriam passar o ano novo. Iria chamar Paula porque muito lhe agradaria sua presumível presença. Sabia que seria uma semana bem divertida, a qual, também sabia, que iria se recordar com muita saudade.

Olhou para o relógio e percebeu que estava atrasado para o encontro com Paula. Tomou banho e se trocou rápido. Foi à sala. Pegou a carteira em cima da mesa e a pôs no bolso detrás da calça. Observou os pais e o irmão caçula no sofá. Aproximou-se e se despediu de todos. Deu atenção maior à mãe, a qual beijou na parte de cima da cabeça. Sabia que ela se sentia orgulhosa com suas demonstrações de afeto. Saiu de casa e entrou no elevador. Olhou-se no espelho do elevador e penteou os cabelos com a mão. Chegou à garagem. Entrou no carro. E saiu do prédio cumprimentando o porteiro. Porém:

Alheio à Paula que esperaria irritada pelo atraso.

Alheio à sua falta na última reunião do ano.

Alheio à apresentação de sua monografia.

Alheio à sua efetivação na empresa. Ao seu futuro promissor.

Alheio às festas de final de ano.

Alheio ao prazer de rever seus parentes.

Alheio à sua agenda.

Alheio à semana de férias.

Alheio à sua paixão por Paula.

Alheio aos jogos de bola com os amigos.

Alheio ao beijo no topo da cabeça da mãe.

Alheio à felicidade de seus pais. À família feliz que iria construir.

Alheio à vontade de todos.

Eduardo esqueceu-se de anotar em sua agenda um compromisso que teria pontualmente as dezessete horas e vinte e três minutos, de um Domingo, dia dezenove de Dezembro, no cruzamento da rua Desembargador Luís Antônio com a Avenida Marco Polo.

JMottër, São Paulo, 4 de agosto de 2008

terça-feira, 15 de julho de 2008

Bom dia, senhor, Rômulo o aguarda

Tudo sempre pareceu estranho, alheio, inútil...
Simples gestos: dizer um bom dia, ou rir na hora certa, segurar no corrimão para não cair, sorrir por reflexo e educação, segurar o riso quando finalmente tenha achado graça...
Lembro do tempo que amava o lugar onde vivia, hoje não há lugar que eu ame, então vago em busca daquele lugar, mas ele se perdeu no tempo. Agora, os lugares onde me encontro servem apenas de cenário para minha ausência.
Observo terceiros a fim de reproduzir seus gestos cotidianos, imitá-los, executá-los, sem saber o porquê, sem questionar a finalidade, pois eles parecem saber mais de como se viver nesse mundo. Quero fazer parte, também, do cenário e passar despercebido.
Encontro-me em estado de sonambulismo perpétuo, nada parece palpável, não vejo pessoas, não há sentido em pessoas quando elas são fantasmas em potencial. Tudo me parece supérfluo quando se sabe para aonde se vai.
Há coisas que todos sabem, e todos sabem que todos sabem, mas não é falado por ninguém.
Penso que a morte não igualará os homens, tampouco os manterá tais como aqui estão.
Talvez o infinito iguale os homens. Pois, bilhões de anos são pífios diante do infinito, milésimos de segundo se equiparam a bilhões de anos, pois são igualmente pífios se comparados também ao infinito. Conceitua-se infinito, mas não há modo de o entendermos. O infinito constante me consola. Tudo ocorre aqui e agora, uma vida em um milésimo de segundo, todas as vidas em um milésimo de segundo, infinitamente. Nasce-se. Procria-se. Morre-se, tudo no presente do infinito constante, pois uma vida se equipara a um milésimo de segundo se ambos comparados ao infinito. Neste exato momento os bárbaros estão chegando a Roma, Paulo está espalhando o ideal cristão em Roma , que ainda parece imbatível.
Escrevo, lêem, nasço, apaixono-me, procrio e morro no mesmo instante. E não obstante, o tempo passa sem meu consentimento, mais um dia vem sem que eu queira; então, hei de me concentrar para reproduzir os reflexos cotidianos mais uma vez, mesmo achando inútil e fútil. Quiçá tudo mude, saia na rua e veja Rômulo Augusto sendo deposto –penso que ainda não será, infelizmente, dessa vez-. Saio, pois, do elevador...Caminho em direção à rua, e antes que saia, escuto um fantasma lembrando-me que sou alheio a tudo, exigindo que eu o imite agindo por reflexo tal como ele, murmurar numa afável voz, com um sorriso igualmente afável rosto -talvez ele realmente goste de mim, penso-, enquanto me acena da guarita de porteiros:
-Bom dia, senhor!

Juliano Motter, Maceió, 15 de julho de 2008

sábado, 7 de junho de 2008

Da felicidade

I.

É mais feliz quem aceita a própria condição

O ser do Homem é ser um ser infeliz

É feliz o homem qual aceita que não é feliz,

Pois a felicidade não é deste mundo,

E mais tristes são aqueles os quais sonham com o que não podem ter,

Portanto, mais felizes os que sabem ser infelizes.

II.

Quem é feliz não sabe que é feliz

No entanto,

Se soubesse que é feliz, não saberia dizer o que é ser feliz

Pois se soubesse,

Já não seria mais, então,

Feliz.

E mesmo que soubesse, sendo feliz, dizer o que é ser feliz,

Não se preocuparia em dizer e saber o que de fato é ser feliz.

Tampouco se ataria a querer dizer como é ser feliz.

Não obstante isso,


Carrego felizes lembranças comigo, que de tão felizes,

Pesam.




Juliano Motter, São Paulo, 8 de Junho de 2008

sábado, 10 de maio de 2008

Estamos todos bem

Mamãe faleceu numa manhã ensolarada do dia 28 de abril. De longe, foi a pessoa mais forte que já conheci. Mesmo perto de sua morte, não aparentava sua fragilidade, o que me levava à crer que ela era, de certa forma, imortal.
Durante toda a minha vida, nunca a vi com homem algum. Tampouco soube muito sobre meu pai. Ela sempre me dizia que ele havia morrido, embora, eu sempre intuísse que era mentira. Ao perguntar a meus familiares sobre meu pai, sempre era ludibriado. Não demorei muito para parar de me importar com tal assunto, provavelmente por por medo. Certo dia, ainda em minha infância, perguntei a ela se não tinha vontade de arranjar algum namorado, ela respondeu que eu já era o homem da casa, portanto, não havia necessidade de outro. Lembro-me que fiquei com meu ego de criança bastante inflado. E foi assim por muito tempo, eu sendo como o homem da casa. Éramos um casal perfeito, vivíamos felizes como se fosse para sempre, não nos faltava nada.E apesar de ter me criado em um âmbito bastante propenso para me tornar uma pessoa mimada, não considero que o tenha sido.
Tive apenas uma única mulher em toda minha vida. Talvez, isso tenha se dado, por ter sido educado somente por uma mulher. Tive com minha ex-esposa duas meninas, minhas princesinhas. Sempre me esforcei para ser um bom pai. Policio-me todo instante, para nunca faltar com a atenção às minhas filhas, ainda mais depois de meu divórcio. Por conta disso, esqueci bastante de mamãe nos últimos anos de sua vida, visitando-a em raras vezes.
Embora, em se tratando de velhos, a morte seja esperada por todos, inclusive por eles mesmos; não imaginava àquele momento o óbito de minha mãe. Estava voltando minhas atenções a outros assuntos de minha vida, tais como a separação e a situação de minhas filhas, e fui pego de surpresa. Obviamente, fiquei estarrecido com a notícia de sua morte, e a consciência me pesou por nunca mais ter oferecido atenção a ela. Lembro que toda vez que a visitava, ela ainda me tratava como se fosse eu, uma criança, preparava-me algo para comer e me fazia recomendações enquanto comíamos, perguntava das netinhas e se havia me reconciliado com sua nora, eu sempre respondia: “-Estamos todos bem. Não precisa se preocupar”. Não cheguei a informá-la que já havia me divorciado em vias de fato.
Dona Carla, uma senhora, amiga de mamãe, quem a encontrou morta, sentada no sofá da sala, ao mesmo tempo em que o vinil no som girava já sem emitir nenhuma música. Imagino sempre a situação de sua morte, no que poderia estar pensando ela? O havia feito naquela manhã até então?
Recentemente fui visitá-la, somente quando ia bater na porta é que me dei conta de que ela já havia morrido. Fiquei muito mais triste àquele momento do que quando fui informado da morte de fato. Mesmo assim, entrei em sua casa, a qual está a venda. Olhei para a poltrona em que ela foi encontrada morta, e decidi ir me sentar, ao me sentar percebi que o vinil ainda estava lá no som. Recordei-me de quando ela era jovem, e eu criança; de como era quando ela ainda tinha vigor, as tardes em que escutávamos música juntos, naquele mesmo som, enquanto arrumávamos a casa. Fui, então, até o som para ligá-lo, para saber o que ela escutava quando morreu, talvez fosse alguma música daquelas tardes.
Terminou de arrumar a casa, como fazia diariamente, a velha senhora. Recordou do ex-marido, o único homem de sua vida, o qual nunca chegou a ser realmente seu marido. Recentemente pensava muito nele; se ele se casara de novo; se ele havia tido outros filhos; se ele estava ainda vivo. Até começar a sentir raiva dele e fazer força para parar de pensar sobre o assunto. Pensou o quanto seu filho estava parecido com o pai, ainda que não quisesse admitir que o pai era um homem muito mais bonito. Sentia falta de seu único filho, que nunca mais a havia visitado, e quando a visitava, era sempre em visitas rápidas. Lembrou-se de como costumava dançar com o ex-marido. Decidiu, então, colocar um antigo vinil para recordar. Colocou-o no aparelho de som, sentou-se na cadeira para esperar sua amiga, como vinha fazendo, todos os dias, nos últimos anos, e pensou o quanto ainda era apaixonada pelo ex-marido. Enquanto o vinil rodava, podia ver a si mesma, em uma imagem cada vez mais nítida, dançando na sala, como naquelas tardes felizes, que pareciam ser infinitas, com o único homem que amou em toda sua vida:

“Crazy, I'm crazy for feeling so lonely
I'm crazy, crazy for feeling so blueI
knew, you'd love me as long as you wanted
And then someday you'd leave me for somebody new
Worry, why do I let myself worry
Wonderin', what in the world did I do
Crazy, for thinkin' that my love could hold you
I'm crazy for tryin', I'm crazy for cryin'
And I'm crazy for lovin' you
Crazy, for thinkin' that my love could hold you
I'm crazy for tryin', I'm crazy for cryin'
And I'm crazy for lovin' you”

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Saudade

Na língua espanhola, e em qualquer outra língua, não existe palavra equivalente à saudade. Porém, há no dialeto galego (no noroeste de Espanha, às margens do Atlântico) um vocábulo expressando a falta de algo ou alguém, também em forma de substantivo, é a: "Morrinha". Mas por que tal vocábulo não foi até hoje aderido pelos falantes de espanhol, limitando-se apenas a atuar naquela região de Espanha? Nunca têm, os espanhois, ou os alemães, ou os franceses, ou qualquer outro povo que seja, o sentir-se impotente da saudade? Penso que seja pelo fato de os portugueses, detentores da palavra "saudade", terem recebido de Deus o dom de navegar, o que resultou na missão de navegar. Tendo à frente, uma linha fria e infinita -a qual divide o Céu da Terra, a meta divina da terrena- , deixando para trás a felicidade que se constituiu em saudade. Assim, também, os galegos. Portanto, falantes da língua portuguesa, galegos ou navegadores, nascemos condenados à saudade, à morrinha e ao adeus. Se sinto saudade, é porque fui feliz àquele momento. Mas os próprios navegadores constataram que a Terra é redonda, e a saudade deixada atrás foi ressurgindo, tal quanto a fria linha do horizonte, desfazendo-se, reconstituiu-se na feliz praia da qual se partiu.

Juliano Motter, São Paulo, 21 de Abril de 2008

sábado, 15 de março de 2008

Mensagem

Do nascimento, da dor e da Felicidade


-"Acorda"



-Que horas são?



-"Não há a hora. Apenas acorda."



-Mas por que?



-"Porque é preciso acordares. Lembra-te de quando sofrias? Tu não sofrias"



-"Simplesmente porque o sofrimento não existe"



-"Compreendo a dificuldade de vislumbrares o que te digo. Mas se estamos predestinados a sermos felizes, cedo ou tarde; pois então já somos felizes, e a felicidade é eterna, e o sofrimento nunca existiu."



-"Acordes, pois, não há outra predestinaçãco que a da felicidade, mesmo que seja triste acordares."



"-Tal sensação de estares em âmago tranqüilo"



-"A maldade é a maior das ingenuidades, é a pura ignorância, e não é correto repudiar os ignorantes, devemos nos prestar a algo que possamos fazer, pois assim já fomos também, embora que jamais seremos outra vez.



"Não posso fazer nada por ti. A dor é tua. Nem eu, nem ninguém pode fazer nada por ti. Ainda que o amemos. Tu deves vivê-la de forma intensa, aproveitá-la, sabiamente, ao máximo. Não adianta protelá-la, e quando compreenderes o porquê de teres sido tu, compreenderás que não houve dor alguma, pois, como qualquer criatura, sempre esteves predestinado à felicidade. E se serás feliz, então já és feliz. Portanto, acorda e dê bom dia ao irmão Sol"


Da matéria



-"Não há como iluminar todo o mundo, o mundo todo. Pois há de ter o escuro para que se faça a luz algum dia e se saia do verbo. Há a luz para se enxergar a matéria, mas a matéria se esgota, por isso haverá de ter algo maior, e outras utilidades para a luz, algo que não cesse na matéria, que o faças enxergar no escuro. Mas, sabe-se que ele voltará, da mesma forma que se sabe que estás predestinado à Luz, à felicidade, por isso, não há o que temer."


-"Vislumbres a perfeição. Agora peço que a encontre em qualquer canto ao teu redor. Tu não a acharás senão dentro de ti, em teus pensamentos, em teu coração. Como podes definir algo que não existe? Como podes imaginar algo que nunca existiu? Simplesmente tu não o podes. Tudo que se pensa existe, a matéria não é mais que um aspecto da realidade. Tudo que conhecemos possui matéria. Tudo que concebemos está já fora dela."

-"Teu avô foi um bêbado. Teu pai foi um bêbado. Nem por isso terás que ser um bêbado. Lembro que vossas bocas engoliam as bocas das garrafas. Já vós são, agora, engolidos pelas bocas delas. Os animais não têm vícios. Se o sofrimento vem depois do prazer, o prazer é um vício, se o vem antes, estás então, no rumo certo. Pois como já o disse, se sofres tendo a felicidade à tua frente, já és feliz. Percebes a tênue diferença entre o vício e o sublime?
Porém, importante ressaltar, que a felicidade não constitui uma meta, ela te constitui, nunca te esqueças. Se não assim for, terás que rever algo; muito provavelmente estarás, assim dessa tal forma, com alguma obsessão, terás que se desquitar dela, e não é fácil largar algo em que se houve dedicação, não é fácil amputar um membro podre, mesmo que seja para o bem-estar do resto todo. A matéria se apega fácil, apodrece, da mesma maneira, fácil também."



Do dor (causada e recebida); da cegueira, do medo e da ingenuidade



-"Destaquemos duas formas de sofrimento: a primeira é a que os justos sofrem. A segunda a que os injustos sofrem por causar. Simplifiquemos: Imagines um homem de olhos vendados com uma espada de aço afiadíssimo na mão, por medo (só se teme no outro o que conheces, e não conheces nada que não estejas em ti. Se tu temes algo ou alguém, aquilo que temes está inscrito dentro de ti) da vulnerabilidade que a cegueira o deixa, desfere golpes a esmo, na tentativa de defender-se. Quando é chegada a hora de sua venda ser retirada, ele olhará em volta e verá que terá matado e mutilado irmãos seus que queriam lhe retirar a venda dos olhos, além de outros vendados com espadas na mão. De certo que os golpeados pelo aço, para vós, sofreram, estão mortos ou mutilados, porém, seus seres imateriais estão intactos e podem sentir cada vez mais o âmago tranqüilo por superarem mais uma expiação. Aquele que golpeou seus irmãos por medo, cegueira e ingenuidade, para vós não sofreu, está com o corpo sadio, apenas causou o sofrimento. Mas, quando a venda de seus olhos cair, e perceber que já é demasiado tarde, sentirá a culpa falando dentro de sua cabeça, e espinhos dentro do peito. Verá sua forma desprendida da matéria mutilada, e a carne sadia de nada vale se a alma não está sadia. Todavia, a culpa é o primeiro passo para a resignação. O mal degladia a si mesmo, cegos contra cegos, temendo os que enxergam. Aquele que causa o sofrimento age por ingenuidade, medo e cegueira."

Juliano Motter e Sussuros, Bremen, 15 Março de 2008

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Mar maçante sem fim

Bilhões de pessoas com seus mundos e um mundo para cada bilhão de pessoas
Soluções hipotéticas para bilhões de mundo e nenhuma solução para um só mundo
Cabeças pensantes do abismo, criam para si um mundo patético e mais alguns bilhões de mundos hipotéticos
Cria, tolo, na lógica dos mundos
A certeza de que homens de outra parte da via Láctea também sofrem, ainda que pareçam que não, conforta-te, medíocre
Sorrias! Pois os outros mundos estão sorrindo, ainda que não queiram. Disfarças o quanto podes!
Pessoas de outros universos com seu mundo tão real, mesmo sendo tão ideal quanto o teu
Conseguistes algo ao acordar e algo se vai com o entardecer
Conseguistes algo durante o dia e o dia se vai com o Sol
Conseguiistes algo ao adormecer e se vai o mundo com a Lua
E continua. E se esvai. E se vai.
Continuas! Mesmo que não haja motivo ou razão

Mesmo parecendo desmoronar o resto, palácios se erguem ao teu redor
As pessoas trafegam sem um porque achando que sim
Cousas passadas parecem erradas
Cousas futuras se fizeram erradas
Mas as tuas cousas serão passadas, absurdo!
E parecerão erradas, em absoluto!
É mais certa? Ou apenas alheia? Olvides porque te temas
Como cada mundo é para com os bilhões de outros mundos ideais?
Sinceros? Ou alheios?
Pois os outros bilhões de mundo estão bem, e o teu desmorona enquanto constrói teu palácio, alteza-para-si-mesmo e com toda a razão, miserável

Cabeças baixas com um infinito dentro do vazio preenchidos pelo tecido corroído de vermes
O vazio faz-se cheio e então pesa, e o cheio faz-se infinito, então voas anestesiado de tanta dor
No céu não há vermes!
Rajadas te atingem pelo vazio, mesmo que não haja tecido
Pessoas gritam, pessoas sussurram e tu procuras e tu não achas
E então, és tu que gritas, e depois tu sussurras e não te acham, não te estendem a mão
Não há nada além da lógica maçante das cousas
Nem tua mulher, nem tua mãe, nem tua filha, nem Deus, nem você
Tu vives. Tu sobrevives, mesmo que não haja motivo ou razão

O que se passa com os bilhões de mundos-perfeitos-para-os-outros e aquele único desastroso?
O suposto. O maçante.
Para onde se vai tudo quando tudo se desfaz? Para o fim da fila num processo previsível e infinito?
Para o buraco negro, vazio, cheio, sem tecido, infinito, indefinido, do universo de todos os bilhões de mundos maçantes?
É impreciso, ainda que calculem com a previsibilidade da natureza deste mundo.
Teu mundo continua aqui, os bilhões de mundo que imaginavas já não existem
És refém de um só mundo, de um só modo, dessa ruína que te cerca, dos vermes, ansiosos, que te esperam com água na boca. Ainda que aches que seja bilhões de mundos perfeitos
És escravo de teus anseios pelo mundo dos outros
Sentes desejos
Mas quem não os sente?
E teus anseios são de um único e problemático mundo perfeito
Assim como os de bilhões de outros mundos egoístas
Ou é um só anseio proveniente dos bilhões que te circundam como se fosses, tu, o Sol.

E faz-se a lógica por ela mesma na junção de todas as cousas. E junto com os infinitos sonhos alcançáveis dos outros. Com os teus inalcançáveis anseios
Mas não sabes falar do que sois, não sabes falar do que vos circunda, não sabes definir nada. Pois o indefinível és tu
Apenas o que te sussurram nos ouvidos te vale. Ainda que seja dor.
E o que é alheio aos mundos? Ao teu mundo?
É prático, é irreversível, é surreal, é a Via Láctea, é o Universo, é o indefinido entre mundo e o espaço vazio dentro de ti, e dentre as bilhões de idéias naturais, bombardeadas de outros mundos da mesma galáxia com um porque duvidoso.

Cria-se em algo. Então criava-se algo. Então se navegava. Então se navega. Eis que em tudo que se cria não havia.

Pior.

Era apenas um mar sem fim, o qual se navega sem chegar a lugar algum. Não havia precipícios, tampouco monstros do além-mar. Apenas o infinito tédio, o ócio absoluto, resoluto na imaginção divina criada pelo homem. E a dolorida certeza que se fez, que se previa, que se protelou, de que estavas só, sem surpresas, sem aventuras ultramarinas, apenas só, preso a este mundo que se navega sem se chegar a lugar algum.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dom dom


A luz do Sol está batendo na altura dos olhos , atrapalha para enxergar
Fechas os olhos e vês tudo vermelho
Escutas os gritos... O coro da torcida.
Fechas os olhos e vêm lembranças ao acaso
Queridas ou não, bem-vindas ou não
Dos nossos descasos.
Respiras fundo, coças a barba, o suor escorre pela costeleta mal feita
Coças as partes baixas, levantas as mãos ao alto e solta um bocejo numa eterna Espreguiçada.
Pensas que tem de fazer a barba, fazer as compras de casa, e ir olhar a dor na coluna
O vento começa a soprar e balançar teus cabelos e aliviar um pouco do Sol.
Aí, então, ele não te maltrata mais.
A luz se acende e ele aparece
A luz se apaga e ele vai embora
A luz volta e tu ainda permaneces.
Há de ter uma trégua
Precisas se agarrar a algo, por isso há tanta invenção, tanta dúvida, tantos escritos.
Tanta lógica ou falta dela.
Achas lógica e depois esqueces a peça que dava lógica ao que achavas

És como o Sol
Que iluminas
Em troca, apagas todas as outras estrelas
Mas penso sair ganhando nessa troca.
Queima!
Como queimas agora, e não como antes.
O Sol de agora é como o Sol da Folga, não castiga, não incomoda.
Quando ele se vai, não foi ele quem foi
Fui eu quem fui com o mundo .
Mudado. fico mudo.
À noite, estrelas cujo brilho não entretém mais
Entendiam-me, não entendem
Ou eu quem mudei... Não interessa!
Nada mais tanto me interessa! Nada mais tanto me apega
Penso que nada pode me pegar
Talvez elas nunca entenderam!
E eu apenas duvido...Talvez invejo a fé dos outros a lógica cega dos outros.
E eu só enganei, mais a mim do que tudo. Assim, penso, como tudo, como todos
Atrás da peça para fazer a engrenagem funcionar
Mas aí então ajo. Arrependo-me depois
Mas tudo de bom coração, mesmo em miseráveis palavras, os deuses perdoam
E haverá um tempo de redenção, onde não haverá arrependimentos, pois não haverá
Necessidade.
É o que dizem. Mas não vejo lógica. Sinto falta dela.

Se desapareces, desapareço também.
Por favor, apresse seu regresso!
Um milhão de Estrelas ponho, por ti, em:
Voga...
Roga!
Joga!
Não por jogar, mas porque é tua Folga!
Pois bem que não consigo mais jogar, e se jogares não é mais a folga...
Raios relâmpagos e trovões despencam de madrugada mesmo que não exista Nessa cidade.

Infinitas estrelas de um milhão de galáxias não competem com o Sol
Fracassos em infinitas palavras de miseráveis poetas.
Fracassados! Não hão de vê-los no passado em seu presente no meu futuro.
Falta-me algo, falta-me tanto e não sou capaz e sei disso e isso dói.
Porém sou aliado ao sentimento, ao intento, ao invento. Tanto tento e não me

Contento.

Lembro daquele boxeador de nossa vizinhança. Diziam que tinha talento.
Ganhou algumas lutas até ter a chance de sua vida.
Conseguiu lutar pelo cinturão de sua categoria [certo dia]
Lembro de como ele estava empolgado.[estava confiante]
Acho que todos estávamos.
Mas o gongo tocou, e ele se foi para cima do campeão
[Que haviam dito, não havia dado tanto interesse ao desafio].
E então, todos percebemos...
Nos primeiro instantes ele percebeu que jamais seria como o campeão
Pois aliado a ele ninguém esteve.
Conseguiu perder sem ser nocauteado [dando o seu máximo].
Saiu acabado do ringue, mais do que literalmente acabado. Sua lógica havia

Acabado.
Havia treinado tudo o que podia, dado tudo o que podia
Mas, mesmo assim, ele não podia.
Ficou acuado em seu córner e resistiu e persistiu e implorou aos deuses.
Torceu do primeiro ao último assalto para a luta acabar e ele volver à sua família.
E então todos percebemos que mesmo que tenhas razão, tu não podes.

Aquele que sabe um pouco a ponto de compreender um muito
E saber que jamais será como o muito, por mais que se esforce
Pois, aliado a ele, ninguém esteve n’outro lugar.
Então. daqui a tempo olharei tais palavras e repreenderei este que vos escreve.
Talvez, olharei para baixo, de cima
E então irei novamente aos deuses de chapéu na mão rogando perdão
Talvez olhando para cima, de baixo, talvez me sentindo como o boxeador
Mas apenas restará perdoar a mim mesmo
E eles me mandarão, então, jogar
Mas ainda não será o tempo da redenção
[Mal escrito, imaturo, sem talento]
Mas eu Tento! Mas eu quero... Mas tu não podes, “filho mio”...
E tais palavras ecoarão pela eternidade dentro de minha cabeça.
Como os murros fizeram ecoar na cabeça do boxeador.
Não consigo, mesmo assim prossigo, e vou indo, adiantando-me à falta de

Talento.
E quem sabe[talvez] eu até mereça. E quem sabe, algum dia, olharei para baixo,
Mas aqui não é o mundo dos merecedores
Nem dos amores amáveis.
Hipotético!?
Tudo que há me parece hipotético e patético.
Porém, jamais olvidarei do empenho e veracidade em tais palavras neste momento
E em momento algum!
Mesmo que seja hipotético e patético.
Se conseguisse colocar na ponta da pena metade do todo que penso que posso
Das milhares de idéias geniais que surgem a esmo, as quais se perdem a esmo

Também.

Rimas que fariam Camões ser ignorado
Poemas que nenhuma Pessoa sonhou
Que nenhum Homero jamais informou
Desculpas que nenhum deus ouviu ...
Falaria do Amor como jamais Paulo algum conseguiu
E então pela milésima vez, daquela vez, eles me perdoariam
E falariam para eu me jogar.
E eu, então, olharia para baixo, e com razão, de fato.
Pois bem que não me vejo escravo de coisa alguma de coisa nenhuma
Exceto de meus pensamentos geniais que se esvaem antes que eu possa exibi-los
E Tu, que desses, não sais. Força-me a olhar para cima.
Sinto-me feliz, não é isso o que importa?
Mas é hipotético.
E as idéias esquecem-me e recai com todo peso sobre os ombros e me vem, à porta,
Culpa.
E quando corro a pena novamente. Os pensamentos. Tu foges.
Nem roguei, nem joguei e o tempo não se importou e passou. E não há mais
Folga.
O fato desconhece o tempo e o tempo é alheio ao fato
Eles simplesmente ocorrem. E nunca se cruzam.

Desejo, então, apenas, conceber-me nas mil penas pensantes geniais,
As quais te agradam. Antes de tua fuga
Desejo me conceber na ponta da pena. Nas idéias que valem a pena
Não para mim, mas por mim
Para que todos saibam as inesgotáveis idéias geniais que tu me concedes
Ao certo que me jogo para não errar, mesmo sabendo, no fundo, que não há Chance.
Quantos e melhores e mais merecedores do que eu, também não quiseram
Também não sentiram o fato da vitória antes do gongo soar.
Mas o fato desconhece o tempo. E eles são alheios.
Todos sonham, mas Deus, apenas se alia a alguns
E só alguns estão aliados a Ele. Mesmo que não saibam.
E eles não se conhecem.
E eles não se concebem.
Mas esses, de vez em vez se cruzam. Então, por desejo divino, corre-se a pena.
Mesmo que eles não saibam.
E mesmo sem se dar conta, tu és merecedor. E a conta sempre vem, e bate à sua

Porta.
Mas, então, tu não te importas.
E se roga, joga-se e grita.
Por isso poucos concebem, para que muitos entendam.
Mesmo que ninguém queira, inclusive Deus. É assim que é!
Mas não cabe a ninguém escolher para o que servir.

Ao alvorecer do primeiro dia, vinha sobre águas diáfanas
Como sempre veio
Como um dia,

alguém quis que navegadores com saudades de casa viessem guiados pelas

Estrelas.

[No seu infinito oceano, tento contornar os mares, desbravar em ti meus males]
Mas, depois, apagaram-se as estrelas.
Tantas esquinas do mundo, tormentosas, há em ti
que nenhum Bartolomeu Dias bordejaria,
tantos selvagens que nenhum Cabral conteria,
tanta tragédia que nenhum Diogo Cão suportaria.
Infinitas milhas que nenhum Vasco da gama percorreria.
E eu bordejo e eu contenho e eu suporto e eu percorro.
E tento e agüento e prossigo
e quando não houver vento, invento, remo se preciso.
e quando não houver estrelas, terei o Sol para me guiar
e quando não houver Sol, eu correrei a pena antes que o tempo corra e o fato ocorra.
Mas o fato ocorre e o tempo é cúmplice e necessário e sádico.
Quando o que digo, de nada mais valer e o mar volver a separar,
Quando o que tive e o que fiz e o que farei ninguém mais souber,
Valerá de algo?

Sorrateiro como aqui se faz, do nada ascende e acende
Do velho mundo para mudar meu mundo
Do velho mundo para o infinito mundo
Da agonia para a fantasia, da fantasia para a agonia
Todo dia. Noite dia, noite dia, noite dia, noite dia, noite dia...
Queima meu rosto, não consigo mais abrir os olhos
Queima-me por dentro
Arde-te minhas vísceras
Pois maior do que isso. Não há maior tormento.
Consigo me sentir bem, invencível, disposto com o Sol no rosto,
Puro!
E Inseguro com todo o escuro que o Sol e os deuses deixaram para nos guiar.

Depois daquela luta pelo título, o boxeador se mudou lá da vizinhança
Disseram que casou com uma tal de Carolina
Certo dia o encontrei na rua, ele me disse que já havia se divorciado
Disse que havia retomado os treinamentos
Mas que dessa vez sabia que jamais seria como quisera,
Como acreditava, antes, que um dia poderia ser.

[Platão vive no mundo o qual ele criou?

Um século depois, Alexandre tomou a península,

Para a qual Platão criou soluções, hipotéticas e práticas
As quais se aplicam ainda hoje, no então, ainda não descoberto, e no agora, novo mundo
E em todo mundo ou qualquer outro que haja.

Quatro séculos depois surgiria um judeu, na região da Galiléia, Yeshua, o nosso Jesus.
Paulo espalharia as idéias de Yeshua pelo mundo, que ainda pertencia a Roma.
Roma caiu!
Agostinho, ainda não Santo, apropriaria-se de Platão para criar o céu e o inferno.

Um milênio depois, o novo mundo seria (Re-)descoberto.
Cinco séculos depois,na mais pura lógica, o boxeador criaria um (novo) novo mundo

para sua Carolina. Sem ringue, sem hipotético.
O qual nem Platão imaginou, o qual nem o mais puro cristão poderia entrar.
E toda vez que ele a via, Platão em seu mundo chorava.
Pois, mesmo tendo “fundamentalizado” a perfeição de Cristo
Ele não poderia imaginar a “fundamentalização” do menino para a imperfeição de Carolina.
Não foi Aristóteles quem superou Platão, e sim o garoto com sua Carol
Junto com toda a fé que tinha na lógica que ela gerava para si.
Mas, a perfeita harmonia das imperfeições de Carolina se esvaíram para o rapaz
E o mundo que ele criara para sua menina caiu, não pelos bárbaros, não por Alexandre.
Mas pela hipotética lógica das coisas, alguma peça da engrenagem se quebrou.

Como naquele dia em cima do ringue desafiando o campeão.
Então, ele compreendeu o patético, novamente, pela primeira e última vez.
[Ainda que saibamos que não]
E Platão, de seu mundo, voltou a sorrir. E a engrenagem voltou a rodar]




Maceió, 15 de Janeiro de 2008

À Tabacaria, e seus 80 anos(completados hoje)

Juliano Motter