domingo, 25 de novembro de 2007

Cidade fantasma

Sabe, estava eu esperando alguma coisa pra depois disso tudo.
Às vezes esquecia o que era mesmo, e aí então eu conseguia viver.
Mas, de repente, chegava numa dessas cidades sem prefeito.
Acho que reconheci alguns rostos.
Rostos que de tanto que não via, pareciam que era coisa da minha imaginação.
Aqueles rostos que nos sonhos nos são tão íntimos.
E quando se acorda não se sabe o daonde daquela pessoa.
Sabe aquelas pessoas que não se consegue entender quão estranhas nos são?
Devido à sua grande familiaridade de antes?
Achei que ia esquecer, mas não consigo.
E aqueles que tento que não me pareçam estranhos
até sairem de minha cabeça e parecerem coisa da minha imaginação.
Esses vão entrando numa neblina
e ficam com o rosto turvo por detrás da neblina.
Até aquele dia de neblina em que os encontro naquela cidade.
Ficamos em dúvida se realmente somos quem somos.
Achávamos que esse rosto era criação da nossa cabeça.
Até nos lembrarmos que ele existe sim, mas passamos reto
Fingimos que não vimos um ao outro, acha-se mais conveniente assim.
Não teríamos o que falar depois de tudo, mesmo tendo tanto.
No começo dói não nos falar, mas cada vez mais, vamos nos falando menos.
E aí não vai mais doendo, e então, vamos esquecendo e nos conformando
até se esquecer um do outro, e achar que aquilo tudo era criação da sua cabeça.
Vamos de frente a um espelho e por detrás de outro;
sempre que avançando nos dá a impressão de estarmos retrocedendo.
Mudamos alguns espelhos de lugar, mas sempre achamos outros,
que outras pessoas também mudaram de lugar, os quais refletem coisas familiares.
Até tinha esquecido, volto então, mas voltando me pareço estar avançando.
Sempre nesse jogo de espelhos, numa cidade de espelhos, refletindo atrás do detrás, avançando parecendo retroceder.
Sei que parece complicado, mas tenho certeza que você entende tão bem quanto eu o que digo.
Retomando..Avançando parecendo estar voltando lá, crio coragem e vou bater em algumas portas.
Atrás de alguns caras que eu costumava conhecer.
Até percebo a cor diferente da parede do muro da frente.
Consigo me lembrar de como bebíamos cerveja e dávamos risadas de frente a ele.
Realmente me sentia feliz, e sabia que um dia entiria falta daquele momento.
Esse dia chegou. E continua chegando toda vez que o Sol nasce.
Toda vez que sinto o gosto ou o cheiro de cerveja, lembro daquelas tardes de sábado.
Na lembrança elas estão sempre com neblinas, e se lá nunca tivesse neblinado
eu me enganaria e pensaria que realmente neblinava naquelas tardes todas.
Mas lá é um lugar muito feliz e quente para existir neblinas.
Então, coragem me falta, e saio antes de alguém abrir e franzir o cenho tentando me reconhecer.
Mesmo não querendo viver tudo aquilo de novo, gostaria de ver tudo de novo, de algum modo, algum dia, só pra me dar conta que estive longe por muito tempo.
Só para sentir de novo aquela sensação boa que se sente, assim que se volta para casa depois de uma longa viagem.
Mesmo sendo ela fracassada, a sensação é sempre boa.
Aquela sensação de felicidade, dos primeiros milésimos de segundo, quando acordamos depois de um sonho tranqüilo, antes de nos dar conta da realidade,
ou quando nos damos conta da realidade ao ver que está tudo bem depois de um pesadelo.
Mesmo não achando terras novas, descobriu-se algo.
E aquela alegria que existe antes de perceber que aquele lugar feliz o qual deixamos,
é aquela cidade com neblina sem prefeito, sem perfeito, cheia de espelhos refletindo algo familiar.
E então, sem perceber, você se tornou um fantasma, numa cidade fantasm, fria.
E por mais que doa, a única opção é resignar-se.
Pois fantasmas, estes, não pertencem mais a cidade alguma deste mundo.

Cidade, mar e mundo.

Ao alvorecer, vindo do mar findo, eram trezentas naus ultramarinas navegando ao infinito.
Lá fora o dia amanhece. Os ônibus vão passando e pegando os primeiros passageiros.
O tubo da pasta de dentes cada vez dura menos. O tubo da pomada idem.
Lembro-me de quando não lembrava. Pensava ser infinita minha existência sobre a terra, preponderante minha vontade sobre as demais.
Aquele gatinho, tão forte, tão esperto. Ficou miando pela casa, cego, sucumbindo à vontade dos gatos jovens, os quais pensavam serem eternos, tal como o, então, cego, um dia pensou.
Lembro de meus avós ficando fracos, tal como meus pais também enrugaram e tal como, hoje, aceito a condição do fim. Lembrando de algo e esquecendo de amanhã.
O que aconteceu com o garotinho que ganhou aquele gatinho? Pra onde eles foram? Será que algo deles se escondem por trás das lentes? Por debaixo das rugas? Será que em algum lugar do universo eles ainda existem? Voltarão a existir? Ainda são fortes? Se é que foram fortes.
Preciso acreditar em algo, preciso continuar respirando. Preciso ter a fé do garotinho outra vez. Crer que as coisas são eternas, de que meus pais serão sempre jovens, fortes, belos.
Agora só me resta o todo, o tudo, o mundo, meu mundo pelo menos.
A padaria da esquina ainda faz pães, mas não os pães da minha infância.
Algo em mim se perdeu, ou se achou. Porém, sei que o gosto do pão mudou, pelo menos para mim.
Aquele senhor que os fazia não ensinou bem o ofício ao seu filho?
E o mar? O mar de minha cidade. Será o mesmo mar oceano de El-Rei?
Como pode minha cidade estar contida no mundo, se ela é o mundo?
Como pode o mar inundá-la, se o mar é parte do mundo, e ela é maior que o mundo?
Eram mares finitos, navegavam-nos, por si sós, com trezentas naus ultramarinas, ultrapassaram o Borjador, o cabo Tormentoso, circundaram o globo, construíram feitorias, fizeram uma parada em minha cidade, e deixaram mar e mundo infinitos.
Mas mesmo assim são menores que minha cidade.
Quanto à efemeridade das coisas, sinto-me invencível, interminável.
Não tenho nada a perder. Mesmo sabendo que viver implica em morrer. Mesmo sabendo que um dia o mar irá submergir nossa existência.
Mas em algum lugar, em alguma data, virão de novo pela primeira vez, trezentas naus, trazendo novidades do além mar, do infinito.
Pães de milhares de anos sairão frescos do forno, o padeiro ensinará o ofício ao filho, o gato somente verá depois de perder a visão, eu reescreverei essas palavras, alguém as lerá, alguns entenderão, e o mar virá inundar minhas palavras, minha cidade, meu mundo, e o infinito.