quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Se eu tivesse um Dom

Ah se eu tivesse um dom;

Elevaria meu tom,

Sem mexer no som;

Construiría músicas como Bach,

Destruiría o comum dos comuns.

Dos Imundos mundanos.

Não acharia arte em qualquer parte.

Riría de Jean Paul Sartre.

Explicaria ao jovem barbudo que se diz anti-liberal;

Que sua camisa comprada por $5 com a foto de "Che"

Havia sido fabricada na China pela pechincha de $0,05,

Com mão-de-obra ilegal.

"Che" ficaria orgulhoso.

E que botar todos em igualdade é um pecado,

Pois quem talento tem não deve ser pertubado.

Faria uso da aliteração e assonância com uma ressonância,

Tal como o jovem Chico um dia fez.

Desmascaria aqueles que não têm dom,

Vestindo a máscara dos poucos que têm

Fazendo arte com a arte, a vendo em toda parte.

Diria que não é bem assim.

Zombaria dos poetas das rimas pobres,

Pobres, misturam ouro com cobre

Não perdoaria aqueles que querem escrever

Mesmo sem saber a diferença

Entre objeto indireto,

E objeto direto preposicionado.

Meus versos seriam tal como aquele Pessoa

Mas vou de vento em proa a algum lugar

A lugar algum, quem sabe, cruzarei o cabo tormentoso

Farei de mim todo o orgulhoso

Mas sempre serei aquele menino que era bom em tantas coisas

Mas não era suficientemente bom em nada.

Havia, diversas vezes, pegado a estrada errada, e erraria de entrada.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Aniversário

Às cinco e vinte da manhã ia embora o seu último convidado. Ainda meio tonto da noite de farra, foi para seu quarto e sentou-se na cama. Percebeu que amanhecia o dia e decidiu então olhar as horas, mas antes, desabotoou lentamente a camisa, num ato inconsciente, treinado. Então levou seu pulso até os olhos. Franziu o rosto tentando enxergar através daquela pequena claridade que aos poucos penetrava pela janela. Pelejou consigo mesmo, entre a vontade e a necessidade, tentando decidir se era melhor dormir, ou tomar um banho e ir trabalhar. Levou os dedos aos olhos, soltou um bocejo, e se pegou lembrando já com saudades da noite que acabara de viver, lembrou-se de como havia sido feliz nas últimas horas, recordou dos motivos tolos das risadas. Quando começou a reconstituir fatos através de flashes de bêbado, sentiu-se ridículo por frases constrangedoras que havia falado na festa. Depois pensou que estava certo, e até conseguiu sentir um certo orgulho.
Tentou pensar no porquê das pessoas darem parabéns aos aniversariantes, pois se manter vivo durante mais um ano não lhe parecia um mérito, e sim algo natural, quase uma obrigação. Constrangia-lhe as máscaras sociais com que seus amigos se disfarçaram na festa, tentando entrar em círculos de conversas banais, irritava-lhe o falso interesse que fingiam ter em coisas tolas, das risadas inseguras forjadas por alguém qualquer, já que como era o anfitrião, conhecia todos bastante bem, e sabia que não eram aquilo que queriam parecer ser . E então sem motivo aparente algum, pegou-se lembrando de quando seu pai havia deixado a casa, de como sua mãe havia ficado infeliz. Não tinha boas lembranças de sua infância, ficava com raiva quando alguém o forçava a lembrar delas, as escondia dentro de si, por trás de sua própria máscara. Seria justo apontar-lhe inúmeros defeitos, porém, muito provavelmente pelas dores de infância, havia se tornado um excelente pai.
Passou vinte anos com sua ex-esposa antes de se separar, o tempo que achou necessário criar o filho. Não era segredo o fato dele ter se casado sem amor, e sim porque a havia engravidado. Mesmo depois de anos não conseguiu amá-la como a uma esposa, e a ausência dela em seu aniversário era mais do que esperada, achou melhor assim, torceu para que assim fosse. Seu filho não pôde comparecer por estar estar estudando na Europa, mas fez questão de ligar dando-lhe os parabéns. Neste momento não conseguia esconder a alegria da ligação. Havia mandado ele para lá, pois de lá, tinha as melhores lembranças de sua vida. Sabia que seu filho não mostrava o mesmo entusiasmo pelo velho mundo que ele; sabia também que o havia mimado demais e o deixado um tanto fútil, sempre falava que gostaria de ter tido para ele, a juventude que proprocionara para o filho. Fora criado pela mãe e pelas irmãs, tendo muito pouco contato com seu pai. O viu poucas vezes depois dele ter saído de casa, a última um pouco antes dele morrer, foi o único que o visitou naquela circunstância, como sempre, disposto a dar-lhe o perdão do qual ele jamais pediu.
Sua mãe foi a primeira a ir embora da festa, muito antes dos demais. Estava completamente deslocada, o barulho a incomodava, e como ela mesmo disse se justificando para ir embora, não tinha mais idade para aquilo, passou a festa recebendo a insistente assistência do filho, mesmo dizendo diversas vezes em vão que não era para ele se incomodar, porém, ele sempre respondia que aquilo não era incomodo algum. Antes dela ir embora, já na porta, levou a mão ao rosto do filho e disse: "-Não é porque você é meu filho que o acho a pessoa mais doce do mundo...Você se parece muito com seu pai." Lembrou-se então de como seus pais eram anos atrás, de quando eles iam passar os finais de semana naquela mesma casa de praia em que acabara de comemorar seu aniversário, de como seu pai mostrava- se para ele e para sua mãe, quando entrava no mar e nadava com um vigor físico invejável, enquanto mãe e filho ficavam sentados na areia assistindo a tudo com entusiasmo. Ver sua mãe fraca, idosa, com rugas no rosto, com um olhar distante e cansado, deixou-o desesperado, deu-se conta de que jamais havia percebido o quão velha ela estava. Lembrou-se de quando foi visitar seu avô, depois de quinze anos sem vê-lo, estava então com dezenove anos de idade.No momento em que viu a varanda da casa de seus avós, recordou-se da temporada que passou ali enquanto sua mãe se recuperava do choque da separação, procurou então pelo avô, e percebeu que ele era aquele velhinho fumando, sentado na cadeira de balanço, tentando esconder as lágrimas, emocionado com a presença do neto que não via há anos. Sempre disse que aquele velho foi o homem mais forte que já conhecera, para justificar isso, sempre descrevia como ele matava os bois. Os pegando pelas orelhas e iniciando uma briga, até o momento do boi se cansar e aceitar a condição da própria morte, aí então, sacava uma faca da bota e desferia-lhe um só golpe mortal na jugular. Vendo seu avô daquele jeito, ao olhar para seus olhos cheios de lágrimas, foi inevitável uma comparação com os olhos dos bovinos que ele matara em sua juventude. Quando dali foi embora, prometeu a sua tia, irmã da sua mãe, e que cuidou de seus avós até o momento de suas mortes, que não passaria mais tantos anos sem ir, os visitaria todos os anos. Cumpriu sua promessa.
O último convidado a ir embora, foi Carolina. Ficaram conversando durante horas. Ele sempre fez questão de aproximar-se dela, muitas vezes sendo chato. deve-se atribuir isso o fato dela ter ido embora tão tarde, pois, sempre fazia de tudo para conseguir sua atenção na festa. Sempre foi assim. Jamais conseguiu esconder isso de alguém. Ele mesmo dizia, que dos inúmeros dons de Carolina, o que mais lhe agradava era de fazê-lo feliz.. Em sua presença era um hipócrita, pois vestia algumas máscara das quais tanto condenava. Quando ela foi as cinco e vinte da manhã, pensou se deveria tentar dar-lhe um beijo, mas faltou-lhe coragem, sentiu então um certo arrependimento. Sempre se julgou melhor do que os homens que ela teve, e fazia força para entender o motivo pelo qual ela jamais o aceitou. A conheceu quando estava com apenas dez anos de idade. No momento em que a reparou pela primeira vez, ela o olhou de volta, do modo que constrangeria e deixaria de guarda aberta o mais sério e autoconfiante dos homens. Nunca conseguiu ser seguro em sua presença, por isso vestia alguma máscara qualquer. Sempre comparou suas mulheres a ela. Quando deitava-se com suas promíscuas donzelas, sentia-se observado por aquela garotinha, e no instante de seu coito, podia até vê-la no canto do quarto, observando sua intimidade, de maneira igual àquele dia em que a observou pela primeira vez, com os mesmos olhos de louca, cincundada numa coroa de flores, com uma lágrima pendente, prestes a cair, em cada olho. Então deitava-se ao lado de sua parceira e sentia-se culpado.
Às cinco e vinte sete, quando já havia decidido que iria tomar banho. Decidiu antes ir ao mar. Botando os pés descalços na areia, pôde observar Carolina com as sandálias nas mãos, afastando-se com passos cambaleantes pela praia. Pensou em chamá-la. Desistiu. Lembrou-se há quanto tempo não pisava descalço na areia, e de como conseguia correr na praia, quando era jovem. Parou para escutar o barulho do mar. Pensou o quão insignificante lhe pareciam os anos que viriam, tendo em vista os que se passaram. Lembrou do filho na Europa, mas sem saudade, pensou, e com razão, que do outro lado do oceano estaria ele. Lembrou-se que fora lá onde passou a melhor época de sua vida. Lembrou do pai se mostrando naquela mesma praia para ele e sua mãe. O sol já estava bastante nítido, embora começasse um tenro chuvisco. Olhou mais uma vez para Carolina, cada vez mais distante no horizonte, achou bonito seus contornos naquele vestido preto, cada vez mais embaçados pela distância, e a desejou uma última vez. Torceu para que ela olhasse para trás, até o momento de perdê-la de vista.
Sentiu-se invencível, imbatível do mesmo modo como seu pai um dia se sentiu naquele mesmo mar, tirou os sapatos e a camisa, antes de entrar na água e começar nadar em direção ao sol que ia nascendo, em direção a Europa, aos melhores dias de sua vida. Enquanto ia se afastando, se via na areia, junto da mãe, os dois sorrindo, cada vez mais distantes, dando-lhe adeus.