segunda-feira, 26 de abril de 2010

HannaH

Hoje o Inferno fez as malas e saiu do Passado só para me visitar.
Entrou sem que eu percebesse...
Cutucou-me na cabeça e me acordou de sonhos felizes, que pareciam reais, para que eu lhe fizesse companhia.
Contou-me novidades já sabidas; desconfiadas, que saíam da neblina da Incerteza.
Por depois, foi-se. E mesmo indo, jamais se vai. Sua ausência é uma presença, e sua presença uma dor.
O Passado que teima em se fazer presente, sussurra-me ao ouvido enquanto durmo. Acorda-me com voz de sadismo. Sentado ao pé da cama uma figura disforme que não é um espelho, mas é como se fosse. Com os olhos doentios famintos que me fitam e me dizem sem falar:

-Não adianta se esconder. Não adianta fingir que não existo. Por mais que me esqueça, eu nunca deixarei me esquecer.


JMOTTËR, São Paulo, 26 de Abril de 2010, Segunda-Feira

quinta-feira, 1 de abril de 2010

ALLAN

Tentar fugir do se pensar:


ora no passado, com o Allan e a Wander.

ora no futuro, sem nenhum rosto familiar. Mas amando a todos como outrora.

E que farei de Agora?

domingo, 27 de dezembro de 2009

O vôo da pantera vermelha

O velho sentado na cadeira de balanço à varanda ideal
Pensava...
Sem se dar conta de estar pensando.
Pensava...
Mesmo sem saber que se podia pensar.
Tampouco saber que se pode dizer o que se pode pensar,
-E se pode?-
Nem que o que se pensa possa existir,
E que há palavras para traduzir pensamentos, ainda que de forma pífia.
Pensava sem prestar atenção no que estava pensando.
Pensava sem realmente saber o que estava pensando.
Adentrava em reflexões profundas de pensamentos vazios,
Simplesmente adentrava numa onda invisível,
Demasiada aconchegante.
Deixava-se ir por completo,
Era pela primeira vez completo.

“- A Terra é até onde meus olhos alcançam, não é redonda!
Posso ver morros, vacas nos morros, uma igrejinha em um morro,
Mas não o que há por detrás do morro.
A Terra é plana para mim, é onde vivo...
Há tanta gente na Terra, tantos pensamentos pensados em tantas línguas distintas,
E dizem que ela é um pontinho só no Sistema Solar, que está na Via Láctea.
Há bilhões de estrelas na Via Láctea...
Ela tem este nome porque alguns gregos há milhares de anos, neste mesmo planeta girante, mas não onde meus olhos possam alcançar, - mesmo que tal fato se desse neste morro à minha frente-, achavam que suas estrelas aparentavam o rastro de leite derramado.
Leite que sai de animais como aquelas vacas que estão neste morro à minha frente.
Esses gregos só existem por minha causa,
Assim como este morro, estas vacas, aquela igrejinha e o próprio Cristianismo com seu Deus,
Pois; sem mim, para mim nada existiria.
E tão certo é dizer que nada existiria para qualquer outro se este não existisse.
Só há morros, vacas, igrejas, Terra e Universo porque há quem se dê por eles.
E são tantos quanto tantos Universos possam existir,
Cada um com um Universo para si pensando ser o mesmo para todos.
A Terra é demasiada cheia de pensamentos, pessoas, Eras, vacas, igrejas e morros; que se afirmar qualquer coisa é muita presunção.
Quem sou eu para dizer uma verdade, mesmo a que meus olhos vêem?
A Terra é plana porque assim a vejo, mas o que vejo dizem que é uma mentira.
Compreender é ter a ir que pensar que jamais haverá compreensão.
E qualquer coisa além disso é muita presunção.
Tudo é uma mentira sem deixar de ser uma verdade.
A Via Láctea é um pontinho no Universo.
Há o tempo diferente em que as coisas se dão, e espaços diferentes para se dar outras coisas também.
Este mesmo morro à minha frente não é o mesmo morro de ontem porque ocorrem coisas distintas daquelas.
Aquelas não são as mesmas vacas ainda que façam as mesmas coisas e guardem perfeita semelhança com as de ontem.
Eu não sou o mesmo de ontem, de uma hora antes, de um segundo, de um lapso temporal menor que a menor coisa que possa existir, até vir a coincidir em mim mesmo...
Aí então, eu não sou eu, e Nada não é nada.
E as coisas acontecem guardando semelhanças com algo invisível que não as deixam desgarrar do Universo, e existem porque os olhos vêem!
Mas os olhos pensam que a Terra é plana e que as Estrelas são vaga-lumes.
No entanto, ao redor das Estrelas, há tantos outros planetas girantes como este aqui, quem sabe até este mesmo!, em um tempo que meus olhos jamais poderão alcançar, -estão lá, mas não posso ver-, com um velho pensante que já deixou de existir com seu próprio planeta.
Assim como eu a meu tempo, mas é natural acreditar que não.
Todo passo dado é rumo ao desconhecido.
- Envelhecer é viver tudo aquilo que já se foi vivido no mesmo instante em que se tem de caminhar para o desconhecido-.
Todo caminho trilhado é sem volta.
Pensando se estar voltando, está-se andando adiante na escuridão,
Rumo nem a uma verdade e nem a uma mentira que os olhos ainda não podem ver.
Por detrás do morro o Sol vai desaparecendo e já não posso ver as vacas e a igrejinha, mas elas estão lá.
O Universo que estava invisível vai se abrindo em uma noite estrelada como um milhão de vaga-lumes.
O fim do dia é o fim do Mundo.
Quem garante que o Sol vai voltar amanhã?
Só porque ele sempre voltou todos os dias?
Não há passos rumando para lugar conhecido algum, todo dia é uma novidade.
Quem garante que aquilo que os olhos vêem, ou não, exista, que eu exista?
Mas se não eu, quem está pensando em meu lugar?
Os pensamentos são uma realidade mais forte que qualquer morro, vacas, igrejinhas, planetas ou estrelas...”

E assim,
Sem saber estar pensando,
Nem imaginar levar à tona pensamentos comuns,
Tão naturais que se confundem com qualquer ser,
Fumando um cigarro, como recompensa de si para si por nada,
O velho na cadeira de balanço à varanda ideal chegava a Descartes sem nunca ter ouvido falar dele,
Escrevia filosofias em seus pensamentos que são comuns a toda (a) humanidade,
Desvendava a Física de Einstein sem também nunca ter escutado tal nome,
Mas que todos intuem.
A Terra já lhe parecia um lugar demasiado feliz para ser deixado,
Mas o Universo, que não era feliz nem triste, construía-se-lhe em exatidão, e era demasiado aconchegante para ser recusado.
Não havia mais passos rumo ao desconhecido neste Universo que o perfazia,
Não havia mais o indefinido, pensamentos impronunciáveis...
Pois tudo o que se pensava já era dito numa língua perfeita.
O velho fumando a Terra, a todo seu tempo, em seu cigarro quase acabado, na cadeira de balanço à varanda ideal, constituía-se no Universo e o Universo em si no balançar de sua cadeira.
O semi-analfabeto velho já era então invencível, estava acima das forças naturais da Física de qualquer Einstein, das verdades e mentiras filosóficas de qualquer Descartes.
Sem saber que sabia...
Pensando...
Sem reparar que pensava...
Sem saber no que havia pensando,
Tampouco lembrar o tanto de idéias sobre as coisas que acabara de pensar,
-Dava preguiça tentar lembrá-las, era melhor ir as esquecendo até não mais sabê-las-.
-Pensar talvez seja ato à parte de existir...-
O Velho compreendia, sem nunca terem lhe ensinado, sobrepujava a Einstein e Descartes sem ninguém nunca saber,
que o perfeito é aquilo que está acabado.

JMottër, Maceió, 28 de Dezembro de 2009, Segunda-Feira

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Três fantasmas

Três eus em minha vida que nunca foi minha,
Que nunca foram eu.
Três retratos na parede do antigo quarto que não querem dizer nada...
Lembro do primeiro, mão na coxa, sorriso para foto, um flash e um adeus.
Lá estou eu imortalizado na estante que não quer mais me dizer nada.
Lembro do segundo, ao lado de alguém que não existe mais, que não guarda mais essência neste mundo à parte eu.
Morremos juntos, aqueles da foto que mais não existem.
Finalmente o terceiro, não foi há tanto tempo, mas me parece nunca ter existido.
Olho para os três, penso em mim e em minha vida, lembro dos três como a três estranhos que nunca quiseram dizer nada, nunca existiram,
Todos lembranças de um sonho tranqüilo...
São todos eu!
Três fantasmas que deram em mim.
Olho para eles como a um espelho que nada reflete;
Olho para eles e vejo este quem os sucedeu como um estranho;
Olho para eles tentando entender...

Como vim parar aqui?

JMottër, Maceió, Domingo, 12 de Julho de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

Mianmar

Não escrevo poemas,
Faço-os em meu pensamento.
Todo escrito é uma mentira!,
A verdade permanece alheia às palavras.

Não sou o que tem glórias ao seu redor,
Herdeiro de grandes fortunas,
General de invencíveis exércitos.
Não sou o que encontrou o que procurava,
-E quem o é?-
E esperava com uma angústia cega de fé
Por aquilo que não veio.
Não recebi os louros da vitória,
Tampouco os receberei.
Simplesmente porque não existem vitórias.
Se pudéssemos todos seríamos gênios:
Newtons da Ciência,
Pessoas das Letras,
Platões da Filosofia
...
Não escrevo o que sinto,
Se pudesse assim o faria.
Sou falso como tudo aquilo que escrevo,
Intersecção fútil entre duas facetas,
A verdade que há em mim e a mentira que falo.

Há gente em Mianmar,
É certo que há.
Tão reais quanto eu!
Nunca vi Mianmar,
Nunca fui a Mianmar,
Muito provavelmente nunca irei a Mianmar!
Deixaria, por isso, de existir Mianmar?
Mas há gente tão real quanto eu por lá!
Têm filhos, irmãos, pais, amigos...
Vão a escolas, a seus trabalhos, divertem-se...

Devem escrever poemas em Mianmar,
Numa língua estranha.
-Estranha seria a minha língua por lá-
Um aglomerado de símbolos sem significado...

Sei achar Mianmar no mapa,
Fica no sudeste de Ásia, no Pacífico.
Imagino as praias de lá.
Sei que Mianmar já fora a Grande Indonchina, parte de França.
Depois Birmânia, submissa à Inglaterra.
Hoje Mianmar.
Todos parte de uma realidade invisível e impossível para mim,
Todos com filhos, irmãos, pais, amigos...
Todos tão reais e tão impossível quanto eu.
Gente de olhos puxados,
Por impulso há de se pensar tal coisa.

Nunca vi Mianmar.
Mianmar é uma mentira,
É apenas um desenho no mapa.
A fronteria da verdade com a mentira é até onde meus olhos alcançam,
É de onde sou (Mianmar está por depois dela).
Lá somos todos partes de uma só realidade,
Filhos de Indonchina,
Irmãos de Mianmar,
Pais de Birmânia,
E amigos de Brasil.
Não há lá poemas em línguas estranhas,
Pois todos os poemas são os do pensamento.

JMottër, São paulo, 05 de Abril de 2009, Domingo

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

À minha linda Squilindra

Se lhe escrevo é porque já foi escrito. Cravado na eternidade. Em mim. Perdoe-me se lhe apareço megalomaníaco; pois, assim é que se apresentam sentimentos. Escrevo-lhe poemas em segredo que serão de toda humanidade. Por hora seu. Para sempre seu. Escrevo-lhe porque é a você que amo. Amei. Amarei. E a toda humanidade resta saber disso. Já que ainda saibam. Que meu amor não coube em mim e transcendeu todo meu ser. Todo o mundo. Todo o Universo. Tudo que está a por nos saber. Todo o meu tempo. Que fui o tolo. Que fui amado como ninguém foi. E Será. Que fui feliz e dispensei. Que fui triste, e em se ser triste não basta se dispensar. Sou um gênio ao lhe escrever. Resta a todos saberem disso. Saberão e terei toda a razão. Saberão de que se trata da melhor dama que já existiu. Embriagado de orgulho e ébrio com outras coisas mais. Amo. Amo. Amo. E me queima amar-lhe. Quero ser teu por toda minha vida. Por todo o tempo por depois de minha vida. Do que sou. Do que fui. Do que serei. Quero que saibam que a amei mais do que qualquer um puder saber. Mais do que qualquer palavra nesta ou noutra língua escrita. Mais que qualquer sentimento de qualquer humanidade ou Deus. Quero que seja de toda humanidade minha febre por você. Meu desejo benevolente por seu amor. E minha ira contra tudo que lhe afasta de mim.

Posso derramar dezenas, infinitas palavras por sobre aqui. Sobre a humanidade. Sobre a eternidade e para além dela. Posso descrever, ainda que sem exatidão, da maneira mais bela que me foi concedido descrever. Da maneira mais bela que chegará aos olhos e peitos dos homens. Querendo apenas que chegue a você. Agradeço e amo Deus por isso. Isto. Por poder representar um tanto disso a você. Sou o que posso bem descrever, escrever. Mas não o que pode viver tudo que lhe digo. Ainda que sem ilusão. Em febre: de que me vale uma vida ? A sua me bastaria. Viveria... Solto coisas abstratas de algo invisível. A coisa menos invisível do mundo. Palavras em orações. Orações coordenadas subordinadas a você. Orações descornadas a você e Cristo e toda a humanidade e tudo que possa em verdade, fé, magia ou superstição lhe trazer para mim. Ainda que não leia. Que ninguém leia. Estes símbolos. Letras construindo palavras. Palavras construindo orações. Orações dando em parágrafos. Parágrafos num texto. Eu em mim, mim num texto...Tentativa pífia de reconstituir um estado de espírito aos olhos dos que lêem se se deparassem com o invisível dentro de mim... O que tenho dentro de mim por você vale mais do que todos os símbolos, textos, estados de espíritos, sentimentos, palavras, evangelhos...Mais do que eu, do que o mundo, o Universo, Deus , o indefinido, outro Deus e o infinito...Só não vale mais do que você. Dizer que te amo fere meus ouvidos. Isto não é amor. É uma febre. É uma doença garrada. Dizer que te amo é gritar de dor. E um se estar surdo com o próprio grito e continuar a ouví-lo. Eu próprio sou. E mais do que isso. Mais do que tudo que possa existir. E ser escrito. E ser escutado. E ser berrado.
Maceió, 20 de Janeiro de 2009, Terça-Feira

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Dédalo

Livro de notas de Agenor e Abele

I.

Sua antiga cidade lhe guardava agora um ar interiorano. Isso doía. As coisas lhe guardavam cada vez menos intimidade. Desde as antigas pessoas que costumava conhecer aos lugares que freqüentava. Era um estranho familiar. Porém onde estava a morar era um estranho estranho. Todavia isso doía menos. Encontrou-se com amigos. Sentia-se deslocado. Um tanto não querido. Talvez com razão. Cada vez menos tolerava conversas daquele povo, de qualquer povo. Estava perdido em meio a dois lugares que não queria estar. Em meio a mais paixões que podia carregar. Esqueceu-se de muitas coisas que lhe tiveram de ser lembradas à medida que se esquecia de outras que lhe seriam igualmente lembradas depois. Tudo lhe trazia angústia.

Estava a perder intimidade com o mundo físico e se aprofundar num caminho sem volta em tudo que se contrapunha à matéria. Em verdade, negava tudo que era palpável porque tudo isso lhe causava desconforto. Procurava alternativa nas coisas metafísicas ainda que não pudesse tocá-las ou compreendê-las em plenitude. Ninguém podia. Negava coisas que via em si. Não conseguia mudar. Nem tentava. Procurou refúgio em diversas coisas, forçadas ou não. Tudo em vão. Tudo lhe doía e ninguém podia compreender sua dor, simplesmente porque era sua. Não queria terapias. Não queria remédios. Não queria soluções fantásticas, curas milagrosas. Porque isso simplesmente não existe diante de dor. Sabia de seu estado e havia se resignado a uma vida que passaria diante de si. Seria sempre um segregado. Um estranho familiar. E na infelicidade de sua angústia desconfortável encontrava um certo sossego.

Apesar de tímido acumulou muitas namoradas ao longo de seus anos, algumas concomitantemente, -devido à boa aparência física-; uma filha, um casamento, e dois amores, que não sabia dizer se de fato eram amores. Apesar de ter bastantes complexos era muito vaidoso. E apesar de ser um bom sujeito nunca foi um bom amante. Amou e mui sinceramente cada uma de suas mulheres. Mas não conseguia demonstrar. Ficou de romance por anos sem nunca ter firmado algo sério com diversas garotas. Todas na verdade. Exceto uma. Agora na meia idade, só, vivia em um mundo à parte da realidade. Mal guardava contato com o mundo exterior. Não trabalhava mais. Havia sido aposentado por invalidez psíquica. Fato esse lhe rendia sua precoce aposentadoria. E seu auto-exílio no mundo que criara para si.

Era metódico. Todos os dias saía para correr. Era vegetariano. Escrevia todos os dias, sempre antes de dormir. Sempre freqüentava os mesmos lugares às mesmas horas.
Perdera completamente a noção de como se viver em sociedade. Das falsidades necessárias. Dos risos forçados. Dos falsos interesses em conversas tolas. Das mentiras imprescindíveis para uma vida medíocre que todos almejam. Das mentiras convenientes na hora do flerte... Gradualmente ia perdendo a noção dentre seu mundo imaginado e o mundo real. Não sabia mais se fatos realmente haviam acontecido, ou se não passavam de imaginações suas. Não lembrava mais distintamente de suas mulheres. Misturava características delas em uma só. Confundia os nomes. Esquecia de outras. E pensava ter existido umas outras tantas que não existiram.

A vida se lhe apresentara como um ser distinto de si. Era um ente, não coisa sua. Um ente que lhe perdia intimidade com o passar dos anos. Um ente que parecia querer se despregar de si. Um irmão siamês que precisava ser desgarrado. Tal separação implicaria na morte de um em prol do outro. Como nunca se decidiu qual dos dois viveria, levou uma vida, duas vidas; porém, duas vidas pela metade. De um lado ele querendo viver, recuperar a intimidade consigo mesmo, preferindo uma vida manca à morte. De outro lado ele também, eu!, sugando toda vitalidade de minha outra metade, e preferindo o risco da amputação à uma vida pela metade. Perdoem minhas oscilações. Ora sou o que vos fala, Agenor; ora aquele que mencionei, Abele. E todos somos parte de um só ser: Este que vos escreve.


II.

Penso saber dar por mim quando se é preciso disfarçar sanidade. Mas falho. Ocorre, que me esquecem, às vezes, gestos quotidianos medíocres. Então, sou o insano por não saber dar o riso em contraposição ao siso. Por se esquecer das falsas boas maneiras. E de não concordar com o gosto alheio.

O ser humano se me apresenta como um ser desprezível, salvo exceções. Fazendo esforço e saindo de mim, vejo-me não menos desprezível. Mais até. Pois sei bem das futilidades alheia. Reconheço-as em mim. E o que faço? Tento dar o riso na hora certa sem achar graça. Talvez aqueles, os menos desprezíveis, tenham achado graça. Porque sou eu e não eles o que repara na mediocridade de tais gestos. Talvez eles sejam sinceros e eu um sujeito medíocre infeliz. Sem saber se é infeliz por ser medíocre ou medíocre por ser infeliz...Eles não acreditam no que dizem...Ainda não deram por si que são medíocres.


III.

Não sou o que sabe se chegar à menina. Acho tudo isso ridículo. E quando me vejo estou com a menina de momento como que por obrigação. Gostaria de sair de mim e me ver a se chegar na menina de momento como se fosse a menina certa. Sei capturar o semblante dela como que se pedisse com os olhos que eu me chegue. Sei dizer coisas medíocres convenientes que ninguém acredita, e que todas querem ouvir. Não sei amá-las ainda que as ame, mui e sinceramente.

Amo-a. Minha vida toda dei por isso. Guardo-a para mim como que pudesse guardá-la para sempre. E não posso?

Posso vê-la vestida de noiva com os pés na areia e um buquê nas mãos. O som das ondas e os poucos convidados que não querem dizer nada se comparados a ela e à sensação. Posso ver seu penteado com seu cabelo negro. Seus olhos a fitar o nada como da primeira vez que me cheguei a ela. E o seu olhar que faz com que eu me sinta feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando não estou com ela, quero vê-la durante todo o tempo e nunca mais ter de deixá-la. E quando estou para vê-la sinto tanto medo que tenho vontade de desistir. Mas por inércia continuo meu trajeto ao seu encontro, como que da primeira vez. E como da primeira vez não me arrependo. E me sinto feliz de estar diante dela a todo instante, e desejo que tudo isso fosse para sempre.

Quando tenho de deixá-la, tenho de ser o que faz um esforço tal o que se amputa. Aqui estou sem vê-la, imaginando como que se fosse verdade a praia e seus olhos fitando o nada com raiva.

É acrescentado sempre uma coisa nova quando a vejo. Um sentimento novo a ser catalogado. Como se sempre fosse a primeira vez e eu sentisse o pasmo necessário diante dela. O desassossego de a ter visto, saber que existe. A gana de me chegar e não parecer ridículo. A perturbação agradável de se estar apaixonado. A vontade de jamais deixá-la. A ansiedade de tê-la por imaginação. E de tê-la por ter em realidade. E de finalmente sentir-se afortunado por poder se estar com ela. O cheiro doce de seu perfume sentido por mim e cravado para todo o sempre em meu ser metafísico.

Tudo nela me é motivo para sossego e desespero.


IV.

Sou o que acredito no amor da dama. E o que deu por si que o amor da dama era coisa de sua imaginação. Pude vê-la vir ao meu pé e me desejar amor porque me amava. Cri em suas palavras e disse coisas de minha alma e de meu coração. Amei-a e desejei não ter outra senão a ela. Qui-la para todo o sempre e para todo o sempre quis ser seu. Era tudo uma verdade para mim. Hoje, tudo que era uma verdade para mim rende estas palavras e um desconsolo incurável. Não deixei de amá-la. Apenas deixei de acreditar. E o que me aliviava o desespero, faz-me sentir um tolo. E não me faz deixar de amá-la. Isso dói. Dói mais ainda. E faz o contrário de aliviar o desespero.



V.

Sou. E sendo já sou ridículo. Sou porque não me resta nada a ser senão ser. Sou o que sou porque não me resta nada a não ser isto, ridículo. E se pudesse optar, não seria. E não sendo, não seria menos ridículo.


VI.

Há demasiadas coisas que não sei falar. Gostaria mas sou impotente. Somos todos iguais em alma e sentidos. Captamos tudo quanto possa existir. Sabemos de tudo que se possa saber. Só não sabemos dar por nós. Gostaria de ser o que é lido e retransmitido. Mas não tenho nada a transmitir. Acho que nem gostaria para ser sincero. As futilidades, vejo-as em mim. Na ganância de minhas palavras.

Há demasiada presunção em se fazer versos. Ainda que sejam versos ordinários. Que sujeito pensa ser o que sabe falar de sentimentos aos outros? Quem se pressupõe ter um bom conceito de estética? Nasci enxergando. Às vezes preferia não ver a ter este conceito de estética torto. A causa de todos os sofrimentos nascem dos conceitos de estética. Os olhos cegam a alma.


VII.

Sou o que nunca realiza seus amores. O que toma desejo por algo na medida em que se desconcentra do mundo. E depois se concentra em outra coisa na medida em que se esquece da vida. Sou o que nunca está satisfeito. Sempre com um desassossego n’alma. O que se apaixona por uma e ama a outra. Que carrega consigo a dor de não tê-la. E que ao tê-la, dói por não se estar só. A dor é um ente que me acompanha e me consola enquanto me dói. Já não sei andar só.

E os que me lêem os agradeço do fundo de meu coração. E os que me compreendem os amo do fundo de minha alma. E os que não me entendem, amo-os do mesmo jeito. Sou afável por não conseguir ser de outra maneira. E quando sou rude, perdoem-me, pois já sou o que não posso ser. Ao terminar estes versos saboreio um breve gozo de vitória como quem fez algo digno de entrar para História. De dentro de meu quarto apenas escrevo. Talvez compartilhe isso com a humanidade. Mesmo que professor nenhum de literatura me cite em movimento algum que nunca tomei nota. E ache características em mim que nunca tive pretensão. E me insira em uma vanguarda qualquer que morri desconhecendo. Se escrevo não é para se fazer poemas, pois se há presunção muita em se fazer poemas. Não tenho pretensão nisto. Se escrevo não é no intuito de querer fazer arte ou falar de sentimentos aos outros. Escrevo por não saber. Por doer. E quando dou por mim há um monte de palavras à minha frente.




Maceió, 13 de Janeiro de 2009